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Filhos saudáveis não brotam no jardim...

Você se lembra de suas aulas de genética lá do ensino médio? Lembra de ouvir falar em um monge chamado Mendel, em um tal experimento com ervilhas, e em palavras como "alelos", "fenótipo" e "genótipo"? Muito provavelmente, se você não seguiu carreira biomédica, não ouviu mais falar nisso. O que pode ter te dado a falsa impressão de não ter nada a ver com o assunto, ou de não ser da sua alçada.

Ledo engano. Esse é um tema cuja relevância permeia toda a sua vida, desde quando você ainda era um feto vivendo no útero de sua mãe. E continuou durante toda sua infância, juventude e agora, na idade adulta. E será assim até sua velhice. Terminando apenas em sua morte. Se você for mãe ou pai, é bom que saiba que também tem totalmente a ver com seus filhos. Mais que isso: com a vida que seus filhos levam e com as experiências que eles vivem, dentro ou fora de casa, mas principalmente dentro, onde se concentra a maior parte das experiências indeléveis da vida de uma criança.

Um tempo atrás, andou circulando uma matéria muito interessante que diz respeito diretamente a quem tem crianças, cuida de crianças e vê na forma de cuidado que se oferece a elas uma maneira de intervir na sociedade - presente e futura - e que aproxima a genética ao cuidado diário que oferecemos aos nossos filhos.

A matériatem o título de "Pioneiro da epigenética fala sobre relação entre ambiente e genoma", e aborda uma questão fundamental: a qualidade do cuidado parental nos primeiros anos de vida e a exposição a maus-tratos na infância perduram, realmente, ao longo da vida. E nos faz refletir sobre que tipo de alterações os cuidados negativos promovem no indivíduo que é maltratado.

Nela, são apresentados os resultados e conclusões das principais pesquisas realizadas por um cientista chamado Moshe Szyf, professor de Farmacologia e Terapêutica da Universidade McGill, no Canadá. Ele foi um dos primeiros cientistas a sugerir que "os hábitos de vida e o ambiente social em que uma pessoa está inserida poderiam modular o funcionamento dos seus genes". Em outras palavras: ele foi um dos primeiros a propor queaquilo que o indivíduo vive tem capacidade de alterar sua genética. Não altera a constituição genética em si, mas a forma como ela funciona, e a consequência disso seria um alteração profunda e duradoura, de base genética, em seu comportamento futuro. É de Moshe Szyf, também, a afirmação pioneira de que o processo pelo qual o genoma controla o funcionamento do corpo humano funciona na dependência do ambiente e acontece desde a vida uterina. O que, em última análise, significaria dizer que a qualidade da gestação já seria o primeiro fator de cuidado materno/parental capaz de modificar para sempre o indivíduo.

Em um dos experimentos realizados, Szyf e sua equipe compararam dois grupos de ratas: aquelas que haviam recebido lambidas frequentes de suas mães quando ainda bebês e aquelas que não haviam recebido qualquer tipo de cuidado materno. O resultado: os animais que receberam cuidados maternos sadios transformaram-se em animais adultos mais tranquilos, quando comparados com os que não receberam. E isso porque o bom cuidado materno foi capaz de produzir mudanças cerebrais que permitiram a regulação dos níveis dos hormônios do estresse ao longo de toda sua vida adulta.

Vamos repetir a ordem dos fatores, usando outras palavras: o carinho, a atenção e o cuidado que os filhotes receberam foram alterando a maneira como seu cérebro se formava, se moldava, se organizava. E essa mudança permitiu que, na idade adulta, não desse uma "louca" nos níveis dos hormônios do estresse. Ou seja: o carinho produziu seres mais equilibrados, física e mentalmente.

Você pode estar rindo aí do outro lado, dizendo que isso não tem nada a ver com você porque, afinal, você é um homem e não um rato. Ou uma mulher e não uma rata. E que se você bate no seu filho, ou o humilha, ou o ridiculariza, ou não está nem aí pra sua gravidez, isso é um problema seu e não tem nada a ver com essa coisa de rato. Mas saiba que tem muito de rato em você e muito de você no rato. Sem metáforas. O mesmo para todos os outros animais da classe Mammalia, os Mamíferos. Porque, evolutivamente, somos todos irmãos (aleluia!) e funcionamos de maneira muito parecida, principalmente genética e neurofisiologicamente. De forma que o funcionamento biológico de um pode servir como modelo para o funcionamento do outro.

Tudo bem. Se você ainda não está convencido, saiba que esses pesquisadores se uniram a um grupo de neurocientistas do próprio Canadá e a outro de Cingapura, com o objetivo de analisar os cérebros de pessoas vítimas de suicídio. Buscaram o histórico dessas pessoas, entrevistaram membros da família e conseguiram identificar quais deles haviam sofrido abuso severo na infância (seja verbal, físico ou sexual). E o que observaram foi que entre os que sofreram abusos, os genes que regulavam a expressão dos hormônios do estresse estavam 40% menos ativos do que os demais ou de pessoas que morreram por outras causas. A conclusão você mesmo pode supor: maus tratos vividos na infância deixam o cérebro mais vulnerável ao estresse... E se é o cérebro quem controla e regula o comportamento emocional dos indivíduos, pode-se supor, portanto, que a reação das pessoas que viveram maus tratos quando crianças, frente a episódios de estresse, será muito diferente das que não foram maltratadas. Além disso, o pesquisador e sua equipe mostraram, também, que o mesmo acontece quando a mãe vive situações de estresse durante a gravidez...

Isso tudo significa que, mesmo que seu filho ou filha tenha a melhor seleção dos genes de seus pais, que tenha herdado somente genes que em condições normais o ajudariam a ser física e mentalmente equilibrado, de nada vale isso se essa criança não for amada, cuidada e preservada incondicionalmente durante sua infância. Que os maus tratos são capazes de mudar para sempre sua vida. E que isso não é crendice, superstição ou papo de gente alternativa: é a ciência mais atual, publicada nas melhores revistas científicas do mundo.

Por que divulgar algo assim?

Para que, como disse o próprio pesquisador, tenhamos mais consciência da consequência de nossas escolhas. Para que a ciência, mostrando os reais efeitos da violência, possa ajudar pessoas a mudarem suas escolhas, suas alternativas e a adotar novas formas de viver e de lidar com outros seres, principalmente as crianças, que estão se formando e que podem ter uma vida plena e saudável pela frente quando cuidadas com amor, desvelo, cuidado e não violência. Ressalto também uma frase dita pelo próprio pesquisador:

"Quando eu era um jovem pai, a ideia predominante era deixar a criança chorar para ela aprender a se virar sozinha. Hoje, não fazemos isso porque temos medo do estresse que isso vai causar e de suas consequências. Da mesma forma, temos feito fertilização in vitro, barriga de aluguel, cesarianas desnecessárias, sem pensar muito sobre as consequências disso para a criança. Precisamos começar a avaliar o custo-benefício e tomar decisões conscientes, com base em informações".

Então, se você acha que tudo bem dar palmadas para ensinar (palmadas que assustam, humilham, envergonham e ferem, dia a dia, a autoestima de uma criança); se você acha que tudo bem deixar chorar até dormir (e produzir aflição e sensação de abandono e desamparo em um bebê que acabou de chegar ao mundo e que, tão cedo, está aprendendo que não adianta chamar porque sua mãe e seu pai não o atenderão); se você acha que tudo bem trocar o peito por mamadeira ainda que você tenha total condição de amamentar (deixando de permitir que seu filho se alimente de você e tenha momentos da mais pura intimidade, cumplicidade e conexão); se você acha que tudo bem marcar sua cesariana antes que seu bebê esteja pronto para nascer, se você acha tudo bem tudo isso, saiba: você está no seu direito. Mas isso não faz desaparecer tudo o que sabemos hoje. Isso não anula o futuro. Isso não protegerá seu filho de algo importante: más consequências. Frutos de más escolhas não dele, mas de seus pais.

Se queremos filhos responsáveis, conscientes da relação causa-consequência de seus atos, de nada adiantará falar: é de exemplo que eles precisam. Já passou da hora de abandonarmos as desculpas e assumirmos os efeitos de nossas escolhas.

Filhos saudáveis não brotam no jardim.

É a gente que planta e cultiva.

Fonte:http://www.cientistaqueviroumae.com.br/2013/08/filhos-saudaveis-nao-brotam-no-jardim.html?m=1

2013-08-19

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