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Ansiedade: uma antiga doença moderna. Maria Alice Fontes

Os tempos atuais são definidos por alguns pensadores como a idade da ansiedade. O ritmo de vida da sociedade capitalista contemporânea tem gerado indivíduos cada vez mais consumistas e competitivos, com grandes exigências quanto ao desempenho e a auto imagem. Afirma-se que a simples existência do homem no mundo atual seria um fator preditivo para o surgimento da ansiedade. Portanto, viver ansiosamente passou a ser considerado uma condição do homem moderno ou um destino comum ao qual todos estamos, de alguma maneira, atrelados.

Não há dúvida que, até por uma questão biológica, podemos dizer que a ansiedade sempre esteve presente no dia a dia do homem desde os tempos das cavernas. A novidade é que só agora estamos quantificando, descrevendo tipos e efeitos dessa ansiedade sobre o organismo e sobre o psiquismo humano, de acordo com as concepções da prática clínica, da psicologia, psiquiatria e psicanálise.

A ansiedade passou a ser objeto de preocupação quando o ser humano colocou-a não a serviço de sua sobrevivência, como fazia antes, mas a serviço de sua existência. Assim, o estresse passou a ser o representante psíquico da ansiedade, determinado por questões estritamente pessoais e emergindo de acordo com as formas de relação no trabalho, na família, na sociedade. O fato de um evento ser percebido como estressante não depende apenas da natureza do mesmo, como acontece no mundo animal, mas do significado atribuído a este evento pela pessoa, de seus recursos, de suas defesas e de seus mecanismos de enfrentamento. Isso tudo diz respeito mais à estrutura interna de cada um do que aos eventos do destino em si.

Assim, o conflito interno parece ser essencial ao desenvolvimento da ansiedade. Em nosso cotidiano, sem termos plena consciência, experimentamos um sem-número de pequenos conflitos, interpessoais ou intrapsíquicos; as tensões entre ir e não ir, fazer e não fazer, querer e não poder, dever e não querer, poder e não dever, a assim por diante. Portanto, motivação fisiológica para o aparecimento da ansiedade existe de sobra.

De acordo com G. J. Ballone, a ansiedade pode se manifestar em três níveis: neuroendócrino, visceral e de consciência. O nível neuroendócrino diz respeito aos efeitos da adrenalina, noradrenalina, glucagon, hormônio anti-diurético e cortizona. No plano visceral a ansiedade corre por conta do Sistema Nervoso Autônomo (SNA), o qual reage se excitando (sistema simpático) na reação de alarme ou relaxando (sistema vagal) nas fase de esgotamento. Na consciência a ansiedade se manifesta por dois sentimentos desagradáveis: 1) através da consciência das sensações fisiológicas de sudorese, palpitação, rubor, inquietação e; 2) através da consciência de estar nervoso ou amedrontado.

Os padrões individuais de ansiedade podem variar amplamente. Alguns pacientes têm sintomas cardiovasculares, tais como palpitações, sudorese ou opressão no peito, outros manifestam sintomas gastrointestinais como náuseas, vômito, diarréia ou vazio no estômago, outros ainda apresentam mal-estar respiratório ou predomínio de tensão muscular exagerada, do tipo espasmo, torcicolo e lombalgia. Enfim, os sintomas físicos e viscerais variam de pessoa para pessoa. Psicologicamente a ansiedade pode monopolizar as atividades psíquicas e comprometer, desde a atenção e memória, até a interpretação fiel da realidade.

Se em outros tempos o ser humano manifestava a sua ansiedade como um medo especifico dirigido a um objeto ou situação e delimitados no tempo (animal feroz, tempestade, guerra, etc.), hoje a maioria dos estímulos desencadeadores desta emoção são inespecíficos (por exemplo: insucesso, insegurança social, competitividade profissional, frustração amorosa, política ou religiosa, constrangimento ético); o ser humano moderno coloca-se em posição de alarme diante de um inimigo abstrato e impalpável.

Segundo M. A. Ruiz, as pessoas normalmente se sentem ansiosas diante de uma situação que traga apreensão e, quando ela se resolve, a ansiedade passa. Mas para algumas, este problema é incontrolável. Às vezes, existe um motivo para apresentar a ansiedade, como por exemplo, o stress provocado por um conflito interno ou externo. Mas, em alguns casos, para essa ansiedade não existe motivo aparente. Em geral, os sintomas vão surgindo espontaneamente, sob forma de ataques de ansiedade mas, aos poucos, estes sintomas podem progredir para ataques de pânico, transtornos de ansiedade generalizada ou até nas mais diferentes fobias.

De acordo com a teoria psicodinâmica, o tratamento não deve variar conforme o tipo de ansiedade. Isso significa que não nos preocupamos exatamente, com a existência do tipo de transtorno da ansiedade em si, mas por outro lado, com a história de vida do sujeito e o sentido deste determinado sintoma, no momento atual para o paciente.

Assim sendo, o tratamento psicodinâmico deve ter sucesso em: 1) proporcionar a diminuição dos sintomas mórbidos para o paciente readquirir a indispensável sensação de segurança; 2) fortalecer a sensibilidade e a afetividade do indivíduo a fim de que ele seja capaz de suportar os estresses da vida; 3) promover a ampliação da consciência a respeito dos motivos e da estrutura de seus conflitos íntimos.

Segundo Kaplan, a ansiedade tem uma ocorrência duas vezes maior no sexo feminino e estima-se que até 5% da população geral tenha um distúrbio generalizado de ansiedade. Além das terapias psicológicas, o uso de medicamentos pode ser útil e muitas vezes necessário. As teorias psicossociais sobre a gênese da ansiedade são exaustivamente estudadas, e continuam a ser foco de recentes trabalhos não só na medicina como também na psicologia, sociologia, antropologia e filosofia.

Este texto foi produzido pela Plenamente a partir de informações de: Ballone GJ - Ansiedade, in. PsiqWeb, Internet, disponível em http://www.psiqweb.med.br/ansitext.html
 

2004-12-17 00:00:00

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