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O papel dos Grupos de Discussão na formação da identidade dos adolescentes, Monica Maino, Simone Sanches, Maria Alice Fontes

 Adolescente é só problema?

O senso comum tende a descrever a adolescência como uma fase de transição entre a infância e a idade adulta, repleta de rebeldia, crises, agressividade, revolta com o mundo. Não é raro ouvir os pais se referirem aos filhos de 13, 15 anos como “aborrecentes”.

Essa visão vem inclusive sendo apontada por psicanalistas: “a adolescência não tem remédio, a não ser o tempo e a experiência de passar por ela” (Winnicott, 1962/2001).

O estereótipo está presente até na fala de profissionais da Psicologia, como constatou Sergio Ozella em uma pesquisa de 2003. Trechos de entrevistas traduzem a visão dos psicólogos a respeito de um adolescente marcado por características negativas: “...o adolescente não é criança nem adulto, é um problema” ou “ Sem rebeldia e sem contestação, não há adolescência normal”. (Ozella, 2008).

Essa tendência a transformar a adolescência em um problema não traz contribuição aos pais, educadores e nem aos próprios adolescentes.

Qual a papel da adolescência?

O adolescente é muito mais que um ser no purgatório entre a infância e a idade adulta. Nem toda a adolescência é rebelde ou marcada por crises. Estas, aliás, podem ser muito motivadoras e estão presentes em todas as fases de nossas vidas. Adolescência é potencialidade!

A ideia de uma evolução linear, em que o objetivo da adolescência é atingir a fase adulta, já foi brilhantemente revista por autores como Ana Bock, que vê os adolescentes como parceiros sociais fortes, criativos e cheios de projetos para o futuro.

Existe algo de doentio ou patológico nesse período?

Se experimentarmos perguntar a alguém qual foi a música que mais gostou ao longo de sua história ou qual a lição mais profunda que recebeu da vida? Provavelmente teremos como resposta algo vivenciado na adolescência: o primeiro beijo, a primeira grande festa, o primeiro amor...

É um período de imensa riqueza, de formação de valores, de identidade. O melhor de ser adolescente é o potencial de se tornar qualquer coisa que se deseje.

Turbilhões de questionamentos surgem, os pais não são mais os detentores da razão. Vale, sim, discordar e procurar suas próprias verdades.

Qual o papel do grupo na vida do adolescente e como podemos potencializar esses momentos?

Fica difícil para alguns adultos compreenderem os jovens adolescentes, principalmente porque é nessa fase que procuram o apoio dos grupos, como se necessitassem se afastar das referências que tiveram para construir sua própria identidade.

Valorizar a importância dos grupos na formação do adolescente é o “ pulo do gato” que educadores e psicólogos especializados encontraram para se aproximar dos jovens, aproximá-los uns dos outros, ouvi-los e, ao seu lado, participar desse momento de reinvenção.

Os grupos de reflexão com adolescentes, mediados por profissionais da educação ou da psicologia têm como objetivo proporcionar um ambiente que valorize a socialização, a troca de experiências e o incremento da capacidade de lidar com as questões relativas a essa fase da vida, além de estimular a participação no mundo cultural, político e de produção econômica.

É consenso entre os terapeutas que trabalham com adolescentes a importância do grupo como espaço de fala, de reconhecimento e de suporte para novas identificações (Broide & Broide, 2004; Outeiral, 2003; Magalhães, 2002; Galvão, 1999).

Com a vivência nos grupos, esperam-se como resultados: desenvolvimento de habilidades sociais, maior noção de responsabilidade e limites, incremento na fluência verbal e capacidade de argumentação. Estes últimos certamente funcionarão como base para o futuro.

Como funcionam os grupos de discussão?

Cada membro do grupo, ao ouvir os outros e ao colocar-se no seu lugar, aprende a descobrir aspectos importantes sobre si mesmo – por exemplo: Como se comporta com os outros (quais os seus pontos fortes e fracos); como os outros o veem realmente ...e também a praticar a tolerância e rever constantemente seus valores em relação aos temas discutidos.

Um exemplo seria um adolescente que, de alguma forma hostiliza ou ignora um colega de classe com sobrepeso e, em meio a uma discussão sobre distúrbios alimentares, ouve como se sente um membro do grupo que atravessa problema semelhante. Desenvolve-se a empatia; o adolescente tem oportunidade de colocar-se no lugar do outro.
Desta forma, ele torna-se uma melhor testemunha do seu próprio comportamento, e logo compreende melhor o impacto desse comportamento sobre os sentimentos e opiniões dos outros.

O objetivo é observar em torno de quais ideias e valores eles se reúnem, incentivar suas boas práticas e, eventualmente, aproveitar alguns temas próximos de sua realidade para a discussão.

Por meio dessa interação, o jovem exercita seu verdadeiro papel social e se identifica com comportamentos e valores a partir da convivência com o outro. 

Quais são os temas interessantes para serem discutidas com adolescentes?

  • Problemas relacionados ao corpo e à imagem corporal;
  • Problemas relacionados à alimentação (compulsão alimentar, bulimia, anorexia, ortorexia); 
  • Problemas relacionados à formação da identidade;
  • Problemas relacionados à sexualidade; 
  • Bullying;
  • A pressão para escolha da profissão;
  • Dificuldades escolares;
  • Preconceito;
  • As redes sociais: entretenimento ou alienação?;
  • Problemas de comportamento e agressividade; 
  • Problemas na vida familiar (relação pais-filhos);
  • Prevenção ao uso/abuso de álcool e outras drogas;
  • Problemas com a integração num grupo de amigos.

Além disso, abordar temas atuais também consiste em uma oportunidade de o jovem se perceber como sujeito de sua história, desenvolver a criticidade e a eloquência, enfim, enriquecer o modo como percebe a realidade que o cerca.

Pensando nisso, a Clínica Plenamente programou encontros mensais de aproximadamente duas horas, com grupos de adolescentes para discussão desses e de outros temas. Entre em contato conosco para saber maiores detalhes.

 
BIBLIOGRAFIA

Bock, A. M. B. (2007). Adolescence as a social construction: a research on the concept on books applied to parents and educators. Psicologia Escolar e Educacional, 11(1), 63-76.

Broide, E. & Broide, J. (2004). Violência e juventude nas periferias: uma intervenção clínica. Em Comissão de Aperiódicos da Associação Psicanalítica de Porto Alegre (Org.). Adolescência: um problema de fronteiras (pp.70-79). Porto Alegre: APPOA

Cemim, M.R. A Terapia do Adolescente cpsico@terra.com.br
Fonte: site da UNAT-BR ( 
http://www.unat.com.br )

Coutinho, L. G., & Rocha, A. P. R. (2007). Grupos de reflexão com adolescentes: elementos para uma escuta psicanalítica na escola. Psicologia clínica, 19(2), 71-85.

Galvão, A. C. (1999). O adolescente e a educação: relato de um diálogo entre psicanálise e educação. Em Anais do Congresso O adolescente e a modernidade (pp.126-132). Rio de Janeiro: Escola Lacaniana de Psicanálise.

Outeiral, J. (2003). O mal-estar na escola. Rio de Janeiro: Revinter.

 Ozella, S., & Aguiar, W. M. J. D. (2008). Desmistificando a concepção de adolescência. Cadernos de pesquisa, 38(133), 97-125.

Weller, W. (2006). Grupos de discussão na pesquisa com adolescentes. Educação e Pesquisa, 32(2), 241-260.

Winnicott, D. (1962). Adolescência: transpondo a zona das calmarias. Em Família e desenvolvimento individual (pp. 115-127). São Paulo: Martins Fontes, 2001.

2017-02-13 00:00:00

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