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Os desafios do casamento e a infidelidade conjugal. Claudia Petlik Fischer, Maria Alice Fontes

Por que os casais traem seus parceiros? Será possível conciliar a segurança de um relacionamento duradouro com o desejo pela aventura? Este tipo de pergunta tem sido debatida pela psicóloga belga Esther Perel, desde o lançamento do seu best-seller: “Sexo no cativeiro”, em 2007.

Esther Perel tem mais de 25 anos de experiência em sexualidade humana e seu livro é o resultado de pesquisas clínicas com pacientes que, depois de um relacionamento de longo prazo, apresentavam queixas pela perda da vida sexual e a ameaça da infidelidade.

O que é infidelidade?

Infidelidade é uma violação de normas entre pessoas que mantêm intimidade física ou emocional fora do relacionamento. Essa promessa pode assumir muitas formas, desde os votos do casamento até os acordos verbais feitos em particular entre os casais. A definição de infidelidade continua expandindo com o tempo à medida que as relações assumem diversas formas, como por exemplo, as virtuais. Quando isso acontece, várias questões emergem. É possível manter-se junto quando há infidelidade? Se ficar, a confiança pode ser reconstruída? É possível perdoar e seguir em frente?

Por não haver uma definição universal consensual do que significa a infidelidade, estima-se que aconteça com uma ampla variação, 26 a 75% dos casais.

A infidelidade representa uma quebra da grande ambição do amor completo. Espera-se que o outro parceiro preencha uma lista infindável de necessidades. No entanto, mesmo bons relacionamentos não conseguem proporcionar tudo que se espera do outro.

A Infidelidade pode também ser traumática, quando ameaça nossa própria identidade pela quebra de confiança construída na relação. No passado representava uma ameaça à segurança econômica, mas atualmente desafia principalmente a segurança emocional do casal romântico.

Por que tantas pessoas traem?

A traição, apesar de ser comum, é ainda mal compreendida. Os dilemas do amor e desejo não têm respostas simples.

Algumas pesquisas apontam que a infidelidade envolve questões individuais, como crenças sobre si e sobre o outro, além dos padrões de interação. Quem trai geralmente carrega um conflito entre valores e comportamento. Não significa necessariamente estar em busca de outra pessoa, mas estar à procura de outra versão de si próprio.

O ser humano pode ser atraído pelo proibido. Pode ter a crença do direito de ir em busca dos próprios desejos para ser feliz. A incompletude, ou seja, a quebra do amor romântico, instiga o querer aquilo que não se pode ter e isso representa uma ambiguidade.

Segundo Beck (1995), a decepção nos relacionamentos amorosos ocorre pelas expectativas que são criadas e às quais se espera que o outro corresponda. Porém, na maioria das vezes, não é dito o que se quer e simplesmente se espera que o outro adivinhe.

Há ainda questões que envolvem a mortalidade x infidelidade, como se a pessoa estivesse buscando um “antídoto” contra a morte. Assim, parece ser comum traições após perdas ou em momentos de crise, com relatos de que o comportamento infiel ajudou as pessoas a se sentirem mais “vivas”.

No mundo moderno, algumas pessoas buscam as formas contemporâneas e não monogâmicas de relacionamento. Surgem os “ficantes”, a “amizade colorida”, a presença de diferentes parceiros numa relação aberta de amor romântico e sexual. Interessante notar que, mesmo com uma relação aberta, ainda assim há o sentimento de traição.

A traição é considerada apenas quando há relação sexual?

A traição em uma relação pode aparecer de várias formas, não apenas sexual. Por exemplo, a negligência, desprezo, indiferença e violência também podem ser consideradas formas de traição.

Atualmente podemos considerar que o adultério virtual é uma das práticas mais comuns de traição na sociedade informatizada, embora aceita por muitos casais.

Como reconciliar o que é universalmente proibido, mas amplamente praticado?

O homem é o único animal que faz sexo sem o objetivo de procriação. Neste sentido, o sexo deixa de ser puro instinto e passa a ser um artifício mental. Conciliar o que provoca desejo na mente de cada, mas que muitas vezes é visto como proibido, é fundamental para manter relações estáveis. Casos extraconjugais muitas vezes são o resultado da busca do novo, do diferente, mais do quê de outra pessoa.

Aquele que é infiel pode ter anseio por muitas coisas: uma ligação emocional por algo novo, por atenção, liberdade, autonomia, vontade de se sentir especial e importante, intensidade sexual, um desejo de resgatar partes perdidas de si próprio ou uma tentativa de restabelecer a vitalidade face à rotina do cotidiano.

O diálogo aberto entre o casal e a busca do novo dentro de si mesmo, além do reconhecimento das necessidades do outro, podem ajudar a trazer para o casamento elementos que contribuam para aprimorar a relação e evitar a prática de algo que irá magoar o parceiro.

Há diferenças no que motiva o homem e a mulher a trair ?

Ao longo da história, a traição varia de acordo com a cultura, mas sempre esteve muito relacionada com questões religiosas e políticas.

Algumas pesquisas indicam que os homens traem por razões ligadas à necessidade de sexo, afirmação da masculinidade, além de buscar uma relação idealizada. Já as mulheres buscam o afeto, a vinculação. Quando elas se sentem subnutridas amorosamente ou quando o companheiro se torna agressivo, mal humorado e mantém atitudes depreciativas em relação a elas, aumentam os risco de traição.

A traição significa o fim de uma relação?

As pessoas nunca são vítimas de um mau relacionamento, uma vez que a relação de casal envolve sempre dois. Cada um deve assumir a sua parcela de responsabilidade. Ou seja, a traição nem sempre é a vítima do casamento.

Quando um dos cônjuges demanda mudanças, o outro também é afetado, já que toda ação gera uma reação e assim sucessivamente. Logo, quanto maior a compreensão das fontes de problemas num relacionamento e o conhecimento dos meios para soluciona?-los, mais rápida e favoravelmente a mudança do próprio comportamento afetara? o do outro.

Alguns casos extraconjugais são uma sentença de morte para relações que já estavam por morrer, mas algumas podem despertar novas possibilidades.

A maioria dos casais que passou por esta situação continua junta. Alguns vão sobreviver, outros conseguirão transformar a crise em oportunidade. Oportunidade, por exemplo, de não precisar manter o que talvez não estiver satisfatório. Devido à nova desordem, que pode levar a uma nova ordem, vão conseguir conversar de forma honesta e aberta como talvez não faziam há tempos. O medo da perda pode reacender o desejo e abrir caminho para uma nova verdade.

Quando uma traição é exposta, o que pode ser feito?

Reconstruir a confiança é imprescindível para reconstruir uma nova relação. Assim, para o parceiro infiel vale começar por assumir e expressar a culpa e o remorso por magoar o outro.

Para o parceiro traído, é importante procurar fazer coisas que restituam a autoestima. Rodear-se de amor, amigos e atividades que lhe devolva o sentido de vida e a identidade pode ajudar a se recompor.

Não é recomendável procurar detalhes sórdidos de relações extra conjugais. Evite perguntas que causam apenas mais dor e invista em questionamentos de investigação, sobre o significado e motivos que geraram o comportamento infiel. “O que isso significou para você?” O casal deve se perguntar se gostaria de construir um novo casamento, considerando que o modelo “atual” falhou.

Uma traição pode servir para redefinir a relação, modificar padrões preestabelecidos; assim cada casal vai determinar qual será o legado dessa traição. É possível seguir com uma nova perspectiva. Por um lado há mágoa, mas por outro há crescimento e autodescoberta.

Como o casal pode ser ajudado?

A terapia (de casal e/ou individual) pode possibilitar uma reflexão adequada, contribuir para a resolução do conflito e, consequentemente, à qualidade de vida pessoal, conjugal e familiar. Quando este é um tema central no processo psicoterapêutico, subjacente a um quadro de sofrimento, uma das avaliações fundamentais do psicólogo é entender os fatores que contribuíram para a ocorrência da infidelidade, se a relação conjugal é ou não satisfatória para o próprio e quais as consequências a curto e longo prazo do comportamento.

De forma genérica, convém salientar que as motivações subjacentes à infidelidade conjugal podem ser infinitas. É importante desmistificar a crença de que a infidelidade é sempre um indicador de que a relação conjugal é de qualidade negativa.

O que podemos concluir é que, de fato, quem ama o outro pode traí-lo, mesmo existindo um relacionamento satisfatório.

Entender a situação sem julgamentos requer uma visão cuidadosa da pessoa machucada, daquele que foi infiel e da terceira pessoa. Faz-se necessária uma análise criteriosa de todo o percurso conjugal que a antecedeu, inclusive, a vida dos cônjuges envolvidos no que diz respeito às crenças internalizadas que influenciam a forma como os parceiros se relacionam.

Bibliografia

Palestra TEDx Esther Perel: repensando a infidelidade https://www.youtube.com/watch?v=P2AUat93a8Q

Perel, E. (2007). Sexo no Cativeiro. Rio de Janeiro: Objetiva.

http://www.otempo.com.br/mobile/pampulha/estilo/infidelidade-quem-ama-trai-1.9878

http://www.redepsi.com.br/2012/06/06/an-lise-de-metaconting-ncias-para-a-quest-o-da-infidelidade-conjugal-feminina-thiago-de-almeida-d-bora-lago-de-sousa-rosita-barral-santos-maria-luiza-louren-o-maria-raquel-moretti-pires/

http://abpmc.org.br/arquivos/publicacoes/14051224948bfcea692.pdf

Beck, A. T. (1995). Para Ale?m do Amor: Como os casais podem superar os desentendimentos, resolver os conflitos e encontrar uma soluc?a?o para os problemas de relacionamento atrave?s da terapia cognitiva.

Rio de Janeiro: Record: Rosa dos Tempos.

 

A relação conjugal diante da infidelidade: a perspectiva do homem infiel http://pepsic.bvsalud.org/scielo.php?script=sci_arttext&pid=S1679-494X2014000100003

2016-09-19 00:00:00

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