Página Inicial

O processo de luto frente à morte ou perdas significativas. Claudia Petlik Fischer, Maria Alice Fontes

O que é o luto?

Luto é um processo de adaptação após perdermos algo ou alguém que era importante e significativo em nossa vida. Durante este processo, um novo sentido para nossa existência precisa ser descoberto e construído.

O luto nuca deve ser suprimido. Ele é natural, saudável e revela a força de nossos vínculos, além da capacidade de adaptação e enfrentamento que temos perante as perdas e adversidades.

Apesar de fazer parte do processo de perda, o luto é uma experiência desorganizadora. Quando estamos enlutados o sentido dado à vida é repensado, as relações são refeitas a partir de uma avaliação de seu significado, a identidade pessoal se transforma. Nada mais é como costumava ser antes.

Quais os diferentes tipos de perda que podem ter um processo de luto?

Não é somente a morte física que envolve um processo de luto. Ao falar de perdas, podemos considerar diferentes tipos: término de relacionamentos, perda de bens materiais, mudança de imagem corporal, mudança de casa ou de país, mudança de papéis e de identidade dentro de um grupo, modificação de planos e expectativas quanto ao futuro.

Como é o processo de luto?

Quando a morte ou perda significativa ocorre, tende a causar inúmeras alterações na vida, acarretando inicialmente muita dor e sofrimento, seguido de reações que trazem prejuízos em diversas esferas do funcionamento emocional, social e cognitivo.

Quais as fases do luto?

Alguns autores optam por descrever os sintomas do luto sem precisar uma sequência determinada, ou seja, sem uma evolução em fases.

De acordo com Bowlby, há quatro etapas do luto, que podem acontecer em qualquer ordem. O enlutado pode até passar por diferentes fases em um mesmo dia. São elas: entorpecimento, anseio e busca, desorganização e desespero e reorganização. Assim, não devemos enquadrar o enlutado em fases. As fases sobrepõem-se, não sendo necessariamente bem delineadas.

Quando as pessoas são noticiadas a respeito de uma perda significativa é comum passarem por uma fase inicial de choque e negação da realidade.

O anseio é marcado pelo desejo de recuperar o ente querido, de trazê-lo de volta. Há buscas frequentes e espera pela aparição daquele que morreu. Logo, a culpa e a ansiedade são manifestadas após o enlutado buscar uma compreensão sobre a morte.

Sentimentos de desespero e desorganização, raiva e tristeza são também comumente encontrados, pois é possível que a pessoa se sinta abandonada por aquele que partiu e incapacitada de fazer algo.

Depois do enfrentamento de todos estes sentimentos, espera-se que o enlutado comece a se reorganizar. Embora com a saudade presente e ainda se adaptando às modificações causadas pela perda, poderá retomar suas atividades (Bowlby, 1990).

Quais são as dimensões do processo de luto?

Podemos dizer que há várias dimensões no processo de luto. São elas: intelectual, emocional, física, espiritual, social e comportamental. Todas são interligadas e acontecem de forma concomitante.

·      Intelectual: confusão, desorganização, falta de concentração, déficit de memória, desorientação, negação, alucinação, pensamentos obsessivos.

·      Emocional: choque, entorpecimento, choro, tristeza, depressão, culpa, raiva, saudades, hostilidade, desamparo, ansiedade, medo, solidão, irritabilidade, alívio.

·      Física: alteração no apetite, visão, sono, inquietação, falta de ar, palpitações, exaustão, boca seca, perda de interesse sexual, alterações no peso, dor de cabeça, mudanças no funcionamento metabólico.

·      Espiritual: sonhos, impressões, perda de fé, aumento de fé, raiva de Deus, questionamento de valores.

·      Social: perda da identidade, dificuldade de relacionamento, falta de interação, afastamento e isolamento.

·      Comportamental: hiperatividade, aumento no consumo de psicotrópicos, álcool e fumo, comportamento aéreo, evitar coisas que lembram a pessoa que faleceu, procurar e chamar pela pessoa.

Quanto tempo dura o processo de luto?

Não é possível precisar quanto tempo dura o processo de luto. Há um tempo necessário para realizar o movimento de voltar o foco para outros aspectos da vida novamente.

Na perda de um familiar próximo dificilmente a elaboração se dá em menos de um ano e este período é considerado crítico. O luto pode também “reaparecer” em outro momento da vida para que seja novamente trabalhado.

Qual o papel dos rituais no luto?

Enquanto a morte é desorganizadora, o ritual é organizador. Os rituais têm várias funções, dentre elas:

·      Aproximar as pessoas envolvidas e facilitar a expressão do sofrimento;

·      Marcar a vida e a perda de um membro da família;

·      Ajudar o enlutado a dar sentido à perda;

·      Trazer previsibilidade dentro de um contexto desorganizado.

A criança também fica enlutada? Como reconhecer os sintomas?

As crianças também ficam enlutadas e os sintomas dependem da fase de desenvolvimento que a criança está passando.

Vale considerar que crianças muito pequenas, antes dos 5 anos de idade, ainda não conseguem compreender o conceito de morte. Durante os primeiros anos de vida as crianças estão numa fase chamada de período pré-operatório, onde o pensamento mágico domina suas mentes. Após os 6 ou 7 anos, a criança já tem condição de compreender a finitude e o conceito de irreversibilidade. Assim a compreensão da morte pode acontecer de forma mais complexa.

As reações mais comuns do luto da criança são: medo, ansiedade de separação dos pais, protesto, tristeza, choro, saudade, raiva, retraimento social, sensação de presença do falecido, regressão, euforia, culpa, pesadelos, respostas físicas à perda, como fome e sono. As crianças podem ainda apresentar hiperatividade, sentimento de baixa auto-estima, dificuldade de concentração, distúrbios de aprendizagem, ideação suicida, acidentes, cuidado compulsivo, indiferença e até sintomas de depressão. Tudo isso precisa ser avaliado e trabalhado com ajuda de um profissional de saúde mental.

Todos os enlutados precisam de ajuda?

Embora seja emocionalmente difícil, o luto é um processo natural e não há necessidade de intervenções em todos os casos. Entretanto, para alguns a dificuldade de lidar com a dor é muito expressiva, com a ambivalência dos sentimentos e de aceitar a nova realidade. Quando o processo de luto não consegue evoluir naturalmente ou demora mais do que cerca de um ano, depois da perda do ente querido, há necessidade de avaliação psicológica.

Os casos de luto em que a psicoterapia é indicada envolvem situações de perda traumática, vulnerabilidade,?falta de apoio social ou uma rede de apoio insuficiente,?adoecimento físico relacionado à perda e presença de transtornos psiquiátricos anteriores.

Como a psicoterapia do luto pode ajudar?

A psicoterapia visa a prevenção de complicações associadas ao luto, melhorar a qualidade de vida e oferecer suporte ao enlutado para seguir vivendo diante da nova situação imposta pela perda.

Além disso, também visa tratar a pessoa que se vê severamente afetada pela perda, cujo funcionamento habitual está comprometido do ponto de vista psicológico, físico, social e/ou espiritual.

Durante o tratamento, a psicoterapia ajuda o enlutado no processo de construção de sentido e significado da perda e do novo momento de vida, fortalecendo e desenvolvendo seus recursos de enfrentamento.

Além da psicoterapia, qual outra forma de ajudar um enlutado?

Além da psicoterapia, livros e grupos de auto-ajuda, livros e sites especializados, filmes, palestras, orientações com profissionais especializados, apoio religioso, são algumas formas de buscar ajuda. O mais importante é identificar que o processo de luto está acontecendo naturalmente. Caso ele não progrida, uma avaliação psicológica se faz necessária.

 

Referências Bibliográficas

Bowlby, J. (1990). Apego e perda. A natureza do vínculo (Álvaro Cabral, Trad.). São Paulo: Martins Fontes. (Original publicado em 1969).

BASSO, Lissia Ana  e  WAINER, Ricardo. Luto e perdas repentinas: contribuições da Terapia Cognitivo-Comportamental. Rev. bras.ter. cogn. [online]. 2011, vol.7, n.1, pp. 35. http://pepsic.bvsalud.org/scielo.php?script=sci_arttext&pid=S1808-56872011000100007

Instituto 4 Estações http://www.4estacoes.com

 

2016-08-27 00:00:00

Assine nosso Informativo

Cadastre-se gratuitamente e receba nossos Boletins:
CRP/SP: 3605/J
R. João da Cruz Melão 443, Morumbi, SP (mapa)
© 2017. Clínica Plenamente.
O conteúdo deste site é protegido pela Lei de direitos autorais (Lei nº 9.610/1998), sendo vedada a sua reprodução, total ou parcial, a partir desta obra, por qualquer meio ou processo eletrônico, digital, ou mecânico (sistemas gráficos, microfílmicos, fotográficos, reprográficos, de fotocópia, fonográficos e de gravação, videográficos) sem citação da fonte e a sua reprodução com finalidades comerciais.