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Cognição e Memória em Usuários de Maconha. Maria Alice Fontes

Em abril de 2016 a equipe da Dra Nadia Solowij, da Faculdade de Psicologia, Saúde e Pesquisa Médica da Universidade de Wollongong na Austrália publicou um artigo de revisão sistemática sobre os efeitos da maconha na cognição [1]. Este artigo embasou minha participação no recente evento organizado pelo GREA HCFMUSP: Maconha: Um Simpósio Baseado em Evidências [2], o qual retomo alguns dos principais pontos.

O extenso trabalho de revisão sistemática feito por Broyd et al. (2016) incluiu as bases de dados de todos os artigos que foram publicados nos últimos 10 anos. 3021 artigos foram encontrados nas buscas pelo PubMed e 3220 no Scopus. Destes, 356 foram selecionados pelos títulos e depois analisados de acordo com critérios de inclusão e exclusão da revisão. 260 foram excluídos e os remanescentes 105 formaram a síntese qualitativa dos dados. Vale apontar que temos 2 artigos entre os selecionados para a revisão [3,4].

Quais os principais resultados?

A revisão aponta que a memória tem sido o domínio cognitivo mais consistentemente prejudicado pelo uso da maconha. A memória é um domínio complexo, abrangendo uma grande variedade de processos, mas a aprendizagem verbal tem sido apontada como principal função prejudicada. Os estudos dos últimos 10 anos continuam a aumentar a base de evidências.

Quando nos referimos a falhas na aprendizagem verbal, queremos dizer que os usuários de maconha tem um prejuízo para lembrar informações que foram apresentadas verbalmente. Depois de um tempo as informações tem falhas de evocação e também no reconhecimento [5,6].

Os estudos mostram que há prejuízo na memória verbal de usuários crônicos, especialmente nos adolescentes e adultos jovens, provavelmente devido aa interferência no THC na neurogênese do hipocampo, local rico em receptores canabinóides [7].

A performance de memória é pior de acordo com a frequência, quantidade, duração, idade de início e do gênero, pois mulheres tem prejuízos mais expressivos do que os homens [8].

Existe melhora da memória cogntiva depois da abstinência da maconha?

Em adultos jovens e adolescentes com uso regular de maconha, há melhora da memória depois de 4 a 8 semanas de abstinência. Para usuários ocasionais, 2 semanas de abstinência são necessárias para se observar melhora da memória. Adultos maduros com uso pesado e prolongado de maconha mantém prejuízo até após 1 ano de abstinência. Estes achados são de um trabalho que comparou gêmeos monozigóticos, discordantes para uso [9]

O uso da maconha tem efeitos significativos sobre o QI e a aprendizagem?

Sim, sabe-se que o uso persistente e pesado entre os adolescentes reduz o QI de 6 a 8 pontos. Quando consideramos que a média de QI da população é 100, uma queda de 6 a 8 pontos ainda o deixa numa faixa de normalidade, mas para aqueles que já tem um QI médio inferior, a queda pode representar muitos prejuízos na vida acadêmica.
Sabe-se que jovens com maus resultados acadêmicos são mais do que 4X susceptíveis de ter usado maconha no ano anterior do que jovens com médias mais elevadas na escola [10].

Além da memória quais outras funções são prejudicada pelo uso da maconha?

Além da atenção, uma outra função prejudicada pelo uso da maconha é a psicomotora. As evidências mostram que o usuários são acometidos por uma lentificação de processamento. Isso acontece tanto de forma imediata, após o uso. Nota-se também despois de um período de abstinência, quando ainda pode-se identificar lentificação mental e motora. A função psicomotora está relacionada com a extensa quantidade de repectores canabinódes no cerebelo, local primariamente responsável pela coordenação motora e marcha [11].

O prejuízo da coordenação motora tem preocupado as autoridades devido aos riscos de dirigir veículos automotores depois da intoxicação. Educação, estudos e regulamentações precisam ainda ser implementadas [12,13].

Existe alguma outra área prejudicada, além da memória e da função psicomotora?

Sim, o conjunto de funções chamadas executivas tem evidências de prejuízo após o uso de maconha. Este conjunto de funções são mediadas pelo lobo frontal, local também muito rico em receptores canabinóides e incluem algumas das mais sofisticadas funções do ser humano: planejamento, organização, iniciativa, flexibilidade, controle inibitório entre outras. Estas funções quando prejudicadas atrapalham o funcionamento global do indivíduo dando a impressão da pessoa estar atrapalhada. [14].

Quando este quadro se torna crônico, podemos ter a presença da chamada “Síndrome Amotivacional”. Este quadro inclui tendência a passividade, apatia, conformismo, perda dos ideais e das ambições pessoais. Nota-se a indiferença pelo que acontece ao seu redor, relutância e falta de cuidado na aparência, assim como perda do juizo crítico. Isto pode repercutir na diminuição do desempenho acadêmico dos jovens, para os quais se observa um agravamento significativo [14].

Concluindo, os principais efeitos cogntivos devido ao uso agudo da maconha são:

  • Coordenação motora reduzida
  • Aumento de ansiedade, pânico, paranóia
  • Diminuição da atenção
  • Memória prejudicada
  • Aumento da sensação de prazer e euforia
  • Percepção sensorial amplificada
  • Aumento do apetite
  • Sensibilidade à dor alterada

Os efeitos cognitivos de longo prazo da maconha são:

  • Problemas de memória
  • QI mais baixo
  • Prejuízo nas Funções Executivas
  • Planejamento
  • Organização
  • Controle inibitório
  • Tomada de decisão
  • Síndrome amotivacional
  • Risco aumentado do desencadeamento de psicoses

Infelizmente estas informações são negligenciadas pelos jovens, pois crescem os canais no YouTube e os sites que fazem apologia à maconha, anunciando que os riscos são menores do que o álcool e o cigarro [16].

Bibliografia:

1. Broyd SJ, van Hell HH, Beale C, Yücel M, Solowij N. Acute and Chronic Effects
of Cannabinoids on Human Cognition-A Systematic Review. Biol Psychiatry. 2016 Apr 1;79(7):557-67.

2. http://www.grea.org.br/grea-midia-032.php

3. Fontes MA, Bolla KI, Cunha PJ, Almeida PP, Jungerman F, Laranjeira RR, et al. (2011): Frontal Assessment Battery (FAB) is a simple tool for detecting executive deficits in chronic cannabis users. J Clin Exp Neuropsychol 33:523–531.

4. Fontes MA, Bolla KI, Cunha PJ, Almeida PP, Jungerman F, Laranjeira RR, et al. (2011): Cannabis use before age 15 and subsequent executive functioning. Br J Psychiatry 198:442–447.

5. Solowij N, Battisti R (2008): The chronic effects of cannabis on memory in humans: A review. Curr Drug Abuse Rev 1:81–98.

6. Solowij N, Pesa N (2010): Cognitive abnormalities and cannabis use.
Rev Bras Psiquiatria 32:S31–S40.

7. Lubman DI, Cheetham A, Yu?cel M (2015): Cannabis and adolescent brain development. Pharmacol Ther 148c:1–16.

8. Solowij N, Jones KA, Rozman ME, Davis SM, Ciarrochi J, Heaven PC, et al. (2011): Verbal learning and memory in adolescent cannabis users, alcohol users and non-users. Psychopharmacology 216: 131–144.

9. Lyons MJ, Bar JL, Panizzon MS, Toomey R, Eisen S, Xian H, et al. (2004): Neuropsychological consequences of regular marijuana use: a twin study. Psychol Med 34:1239–1250.

10. Meier MH, Caspi A, Ambler A, Harrington H, Houts R, Keefe RS, et al. (2012): Persistent cannabis users show neuropsychological decline from childhood to midlife. Proc Natl Acad Sci U S A 109: E2657–E2664.

11. Flavel SC, White JM, Todd G (2013): Abnormal maximal finger tapping in abstinent cannabis users. Hum Psychopharmacol 28: 612–614.

12. Andrade C. Cannabis and neuropsychiatry, 1: benefits and risks. J Clin
Psychiatry. 2016 May;77(5)

13. Ramaekers JG, Moeller MR, van Ruitenbeek P, Theunissen EL, Schneider E, Kauert G (2006): Cognition and motor control as a function of delta-9-THC concentration in serum and oral fluid: Limits of impairment. Drug Alcohol Depend 85:114–122.

14. Barnwell, S. S., Earleywine, M. & Wilcox, R. 2006. "Cannabis, motivation, and life satisfaction in an internet sample," Substance Abuse Treatment, Prevention, and Policy, 1(2).

15. Ramaekers JG, Kauert G, van Ruitenbeek P, Theunissen EL, Schneider E, Moeller MR (2006): High-potency marijuana impairs executive function and inhibitory motor control. Neuropsychophar- macology 31:2296–2303.

16. https://www.youtube.com/user/SilencedHippie

 

 



 

2016-06-04 00:00:00

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