Página Inicial

O sono das crianças. Silvia P. Ruschel, Maria Alice Fontes

Você já deve ter ouvido inúmeras mães (e mesmo pais) dizendo: “o que eu mais quero é ter uma noite de sono completa”, ou ainda: “não lembro quando foi a última vez que dormi uma noite por inteira”. O fato recorrente entre pais de crianças e adolescentes é de fácil compreensão, pois quando os filhos não dormem, em geral, os pais também não o fazem, perdendo toda a recuperação física e psicológica que uma boa noite de sono pode proporcionar ao ser humano. Porém, é importante saber que alguns despertares noturnos são normais no período de maturação do sono e passam naturalmente com o tempo, sem caracterizar nenhum distúrbio.


O comportamento noturno das crianças, porém, pode ser bastante heterogêneo e o que devemos fazer é questionar: Por quê o padrão de sono é irregular? Qual o significado de múltiplos despertares noturnos?

De acordo com estudos polissonográficos e eletrencefálográficos, o sono normal divide-se em vários ciclos no decorrer da noite, sendo que cada ciclo dura em média 90 minutos no adulto e 50 minutos no lactente. Após cada ciclo de sono é possível o indivíduo passar por um leve despertar nem sempre consciente. Cada ciclo de sono é composto por dois estágios (não-REM e REM – rapid eye movements). Mais ou menos a partir dos 6 meses de idade o estágio não-REM começa a dividir-se em 4 fases, sendo que as duas primeiras correspondem ao adormecer e as fases 3 e 4 ao sono profundo. No estágio REM ocorrem os sonhos e também é considerado um estágio de sono profundo, importantíssimo para a nossa recuperação mental.

A partir de qual idade devemos nos preocupar mais com os despertares noturnos?
De acordo com a neuropediatra e neurofisiologista do Hospital santa Catarina, Maristela Costa, até os quatro anos a criança ainda está na fase de maturação do sono e qualquer distúrbio ou inconstância pode ser considerada normal, visto que as fases do sono estão desorganizadas. Por volta dos quatro anos, acontece a maturidade do sono, e a tendência é que já esteja bem organizado. Entretanto, caso o sono não se normalize até os 4 anos, alguns aspectos precisam ser avaliados.

Quais são os aspectos que precisam ser investigados na criança que não dorme bem à noite?
Entre 3 e 4 anos devem-se avaliar tanto causas orgânicas, como emocionais, caso seja descartada a questão ambiental que, muitas vezes, promove ou potencializa distúrbios do sono. Muitas vezes, os despertares noturnos se perpetuam ou continuam ocorrendo após 3 anos por condicionamento da criança a certos maus hábitos.


Dentre os problemas de condicionamento das crianças a maus hábitos incluímos aquelas que foram acostumadas pelos próprios cuidadores a beber água ou tomar mamadeira no meio da noite para voltar a dormir, ou ainda aquelas que acordam no meio da noite e só se acalmam no colo, impedindo que a criança desenvolva a possibilidade de acordar e voltar a dormir de forma independente, sem ajuda externa. Os hábitos associados à transição do local de dormir também podem gerar condicionamentos que atrapalham o transcorrer da noite, por exemplo, quando a criança dorme na cama dos pais e depois é levada para a sua cama, pois se ela despertar no meio da noite pode ficar desorientada, atrapalhando a seqüência da noite e, com o passar do tempo, as noites posteriores.

Quais os problemas orgânicos que podemos encontrar nas crianças com distúrbios do sono?
Os problemas orgânicos incluem as obstruções crônicas das vias aéreas que podem ser geradas por alergias, aumento de amídalas e adenóides, broncodisplasia pulmonar, refluxo gastroesofágico no lactente, etc. Algumas vezes, comidas muito doces ou muito salgadas e temperadas também podem dificultar a digestão causando incômodos que podem levar aos despertares noturnos.

Quando a criança chora e grita à noite o que pode estar ocorrendo?
Há um quadro que denominamos de pavor noturno, ou terror noturno. Este se diferencia dos pesadelos ou sonhos que causam medo ou ansiedade e que ocorrem com maior freqüência, sendo comuns entre 3 e 8 anos, quando a confusão entre realidade, fantasia e conteúdo dos sonhos é mais intensa.


O terror noturno trata-se de uma incapacidade da criança de discernir sonho e realidade em fases do sono mais superficiais, quando, muitas vezes costumam acordar. A criança senta subitamente na cama, fica agitada, mostra-se desorientada e não reconhece as pessoas ao seu redor. De forma curiosa, pode ocorrer sempre por volta do mesmo horário e quando os pais chegam ao quarto não a encontram acordada de fato. Pode ocorrer, inclusive, da criança se assustar com a presença dos pais, ou se sentir ameaçada por um contato físico. Os pais devem levar isto em conta, estabelecendo primeiro um contato verbal. Caso a criança acorde, não se recorda do episódio ou se recorda com muita confusão mental.

E o sonambulismo, é normal? Falar dormindo também é?
A criança com sonambulismo é incapaz de comportamentos complexos, como executar uma lição de casa, porém, estão de fato em risco de acidentes e devem ser protegidas. O sonambulismo diminui na adolescência, provavelmente devido ao amadurecimento do SNC (Sistema Nervoso Central). Na criança o sonambulismo pode ser considerado normal, mas no adulto merece avaliação psicológica e psiquiátrica.

Falar dormindo (sonilóquio) também não tem significado patológico para a criança que pode murmurar, falar palavras isoladas ou até mesmo desenvolver uma conversa, muitas vezes com conteúdo ininteligível.

 
Devemos sempre lembrar que os despertares noturnos nos primeiros anos de vida são freqüentes e normais e, nem sempre requerem cuidados especiais ou precisam se tornar motivo de excessiva preocupação. Deve-se permitir que a criança adquira técnicas para adormecer sozinha, promovendo a sua independência. No entanto, é importante ter a sensibilidade e discernimento para julgar quando ela está realmente precisando de intervenção do adulto, ajuda ou companhia. Sendo assim, os despertares noturnos devem ser avaliados sob uma perspectiva de desenvolvimento, já que uma perturbação do sono pode ser considerada normal em uma faixa-etária e patológica em outra. Quando o distúrbio se prolonga ou ocorre fora da idade em que normalmente é encontrado, não hesite em buscar uma avaliação do pediatra mais minuciosa e, se necessário, recorrer a uma avaliação psicológica e o/ou neuropediátrica.

 

Este texto foi adaptado e elaborado a partir das seguintes fontes consultadas:

BUSSE, de Rossi Salvador. BALDINI, Sônia Maria. Distúrbios do sono em crianças. Pediatria (São Paulo), 16 (4): 161-166, 1994.

www.geocites.com/hotsprings/3305/sono1.htm

 

 

 

 www.alobebe.com.br/site/revista/reportagem.asp

www.psicosite.com.br/cla/DSMIV.htm  

2009-04-15 00:00:00

Profissionais relacionados

Temas relacionados

  • Não existe(m) tag(s) relacionada(s)!

Notícias relacionadas

  • Não existe(m) noticias(s) relacionada(s)!

Assine nosso Informativo

Cadastre-se gratuitamente e receba nossos Boletins:
CRP/SP: 3605/J
R. João da Cruz Melão 443, Morumbi, SP (mapa)
© 2017. Clínica Plenamente.
O conteúdo deste site é protegido pela Lei de direitos autorais (Lei nº 9.610/1998), sendo vedada a sua reprodução, total ou parcial, a partir desta obra, por qualquer meio ou processo eletrônico, digital, ou mecânico (sistemas gráficos, microfílmicos, fotográficos, reprográficos, de fotocópia, fonográficos e de gravação, videográficos) sem citação da fonte e a sua reprodução com finalidades comerciais.