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A maconha e o cérebro

Durante o ano de 2000, cerca de 11 milhões de americanos maiores de 12 anos, usaram maconha pelo menos uma vez por dia. Será que o uso da maconha é tão inócuo à saúde quanto pensam alguns adolescentes ?

A maconha é uma mistura de folhas e folhes verdes ou secas de uma planta chamada Cannabis sativa. Existem mais de 200 termos ou gírias para maconha, incluindo "baseado" ou "erva". Ela é normalmente fumada como um cigarro ou em um cachimbo especial. Atualmente a maconha vem sendo consumida também de maneira "mesclada", combinada com outras drogas como o crack e cocaína. Alguns usuários também misturam a maconha com comidas ou fazem chá de suas folhas.

O principal princípio ativo da maconha é o THC (delta-9-tetrahydrocannabinol). Em 1988, foi descoberto que as membranas de algumas células nervosas contém um receptor que se liga ao THC. Uma vez acoplado com o seu receptor, o THC desencadeia uma série de reações celulares, estimulando áreas específicas do cérebro e provocando as sensações que alguns usuários qualificam como prazerosa. Os efeitos de curto prazo incluem problemas com a memória e aprendizagem, percepções distorcidas, dificuldade em pensar e resolver problemas, perda da coordenação motora, aumento da freqüência cardíaca, ansiedade, podendo chegar a ataques de pânico.

Em levantamento domiciliar feito na cidade de São Paulo em 1999, com uma população maior de 12 anos (Galduróz et al, 1999), a maconha foi a droga que teve maior freqüência de uso na vida (6,6%), seguida de longe pelos solventes ( 2,7%) e pela cocaína (2,1%). Para a faixa de 12 a 17 anos os dados de uso na vida (5%) foram muito semelhantes aos encontrados num levantamento de 1997. Para a faixa de 18 a 25 anos, o consumo foi de 9,3%. Para a faixa de 26 a 34 anos, foi de 8,9% e para maiores de 35 anos, 3,5%, totalizando um uso na vida de 5,6%.

Nos últimos anos, pesquisadores (Pope , 2001; Solowij , 2002) têm buscado elucidar quais são os efeitos neuropsicológicos decorrentes do uso pesado ou prolongado da maconha. A literatura tem se mostrado dividida, no que diz respeito à existência de possíveis resíduos neuropsicológicos, isto é, se a deterioração do funcionamento cognitivo persiste mesmo depois de passado o período de intoxicação aguda da droga.

Alguns pesquisadores identificaram que o THC modifica a maneira pela qual as informações são processadas no hipocampo. O hipocampo é uma estrutura do sistema límbico cerebral, crucial para o funcionamento normal de funções como a memória, aprendizagem, além da integração das experiências sensórias com as emoções e o comportamento. A ativação dos neurônios do hipocampo pode ser diminuída pelo THC, esta área que é responsável pelo processamento de informações pode ser alterada dependendo da freqüência e intensidade de uso da maconha.

Mais recentemente, Solowij e colaboradores reportaram uma variedade de déficits neuropsicológicos em usuários de longo prazo, testados numa mediana de 17 horas depois último uso informado de maconha. Este estudo, conduzido em 5 diferentes cidades dos Estados Unidos, entre 1997 e 2000, avaliou 102 usuários diários de maconha e comparou-os com 33 controles, não usuários. Dentre os 9 testes neuropsicológicos aplicados, os usuários pesados demonstraram resultados inferiores, naqueles que avaliavam memória e atenção. Estes resultados persistiram depois do período de intoxicação e foram piores de acordo com o aumento de anos de uso regular, confirmando que o uso prolongado de maconha desencadeia problemas cognitivos e que estes pioram de acordo com o tempo de uso.

Grant I, Gonzalez R et al publicaram uma revisão sistemática em 2003 sobre os efeitos neurocognitivos residuais, não agudos do uso da maconha. Encontram que parece existir um decréscimo na habilidade de aprender e lembrar de novas informações, nos usuários crônicos.

O uso da maconha é muito difundido no Brasil e no mundo. Entretanto, pouco se sabe sobre as conseqüências deste problema em longo prazo. Alterações neuronais e déficits neuropsicológicos têm sido encontrados nos abusadores e/ou dependentes desta substância, e há indícios de que os problemas cognitivos persistam por pelo menos um mês após a cessação do uso da droga. Há a necessidade de estudos mais controlados, que possam esclarecer a magnitude dos déficits cognitivos, impacto na vida social e a possível recuperação das funções neuropsicológicas ao longo da abstinência.

Bibliografia
Pope HG, Gruber AJ, Hudson JI, Huestis MA, Yurgelun-Todd D. Neuropsychological performance in long-term cannabis users. Arch Gen Psychiatry 2001; 58: 909-915.
Solowij N, Stephens RS, Roffman RA, et al. Cognitive functioning of long term heavy cannabis users seeking treatment. JAMA 2002, 287:1123-1131
Solowij N, Stephens RS, Rofman RA et al. Cognitive functioning of long-term heavy cannabis users seeking treatment. JAMA 202; 287:1123-1131
Grant I, Gonzalez R, Carey CL, Natarajan L, Wolfson T. Non-acute (residual) neurocognitive effects of cannabis use: a meta-analytic study. J Int Neuropsychological Soc. 2003, 9: 679-89

Este texto foi escrito por Maria Alice Fontes para Plenamente.

2004-06-09 00:00:00

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