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Adolescência, estresse e abuso de drogas: uma breve discussão.

A adolescência pode ser definida como uma etapa da vida durante a qual o indivíduo procura estabelecer sua identidade adulta. É frequente que esta fase do desenvolvimento humano seja caracterizada por instabilidade emocional com alternância de momentos de extroversão, audácia e rivalidade que se sucedem ou são concomitantes com períodos de timidez e desinteresse, chegando até a apatia. Esta “síndrome” ambivalente gera sobrecarga para a família, para o meio social e principalmente para o próprio jovem em desenvolvimento. Como podemos melhor compreender como os fatores próprios desta etapa se tornam fatores estressores que desencadeariam o abuso de drogas?

O estresse é caracterizado como o conjunto de reações que um organismo desenvolve ao ser submetido a uma situação ou a um fator estressor que exige esforço de adaptação . O fator estressor é definido como qualquer evento que provoque o desequilíbrio de um sistema. Na realidade, a todo instante estamos fazendo movimentos de adaptação, ou seja, tentativas de nos ajustarmos às mais diversas exigências, seja do ambiente externo, seja do mundo interno. Assim, um adolescente em crise de identidade pode buscar nas drogas o distanciamento do estresse, como uma falsa sensação para aplacar a dor emocional de tantos conflitos de identidade. Entretanto, o abuso de drogas na adolescência não pode ser explicado de maneira simplista pela teoria do estresse, já que esta etapa da vida é repleta de características peculiares e complexas.

De acordo com Aberastury, a adolescência normal apresenta uma sintomatologia bizarra que, se vista em qualquer outra fase do desenvolvimento humano, caracterizaria sinais de patologia ou doença mental importante, mas, se considerados circunscritos a esta determinada etapa, a “síndrome da adolescência” representa uma entidade clínica normal. De maneira resumida, encontramos as seguintes características: 1) a busca de si mesmo e da identidade; 2) tendência a andar em grupo ou bando de pessoas; 3) necessidade de intelectualizar e fantasiar os pensamentos; 4) atitude social reivindicatória com tendências anti-sociais de diversa intensidade; 5) contradições sucessivas em todas as manifestações de conduta; 6) separação progressiva dos pais; 7) rápida evolução sexual, com experimentações do auto-erotismo até a heterossexualidade adulta; 8) constantes flutuações do humor e do estado de ânimo.

Tendo caracterizado a fase de adolescência, como um período “normal” de crise, não seria esta evolução natural do ser humano que o colocaria de maneira isolada frente ao risco do abuso de drogas, mas uma conjunção de fatores inerentes ao desenvolvimento pessoal com fatores ambientais que poderiam expor o jovem à sobrecarga e ao risco.

Os fatores de risco para os jovens desenvolverem progressivamente a dependência química podem ser agrupados, segundo Hawkins, em dois grandes campos: a) no contexto social ou ambiental no qual o indivíduo está inserido; e b) no campo pessoal, das relações individuais dentro da família, escola e o relacionamento com os pares ou grupo de referência pessoal.

Considerando o contexto social ou ambiental, a grande disponibilidade da droga leva os jovens a iniciar o uso cada vez mais cedo. O álcool, por exemplo, pode ser adquirido por baixo preço em locais pouco fiscalizados. A falta de oportunidades de estudo e lazer, aliada aos hábitos culturais de consumo, a propaganda e a tolerância da sociedade também tem um papel expressivo no incentivo ao abuso.

Retornando para os fatores individuais de risco, apontam-se questões como a história anterior de uso de drogas na família e falta de uma expectativa clara dos pais acerca do comportamento do uso de drogas, o ambiente familiar agressivo e desestruturado é conhecido como um fator que associado a “crise” inerente da adolescência aumenta significativamente o risco das drogas. O fracasso escolar também é considerado um fator coadjuvante importante, já que sendo o principal foco de atividade do jovem, pode acentuar a sensação de impotência e baixa auto-estima, trazendo mais um conflito além daqueles próprios da sua faixa etária.

Mesmo frente a todas estas características de risco, o que se observa é que apenas uma parte dos adolescentes acaba abusando das drogas como um anteparo para o seu sofrimento. A outra parte estaria se desenvolvendo de forma estável entre os fatores de risco e os protetores. Assim, concluímos que a adolescência representa um fator de risco importante para o abuso de drogas, mas não deve ser considerada de maneira isolada como responsável por todos os comportamentos negativos de risco.

Bibliografia
1. Mello FJ. Psicossomática Hoje. 1992. Artes Médicas
2. Aberasturi A, Knobel M. Adolescência normal. 1992. Artes Médicas.
3. Hawkins JD, Catalano RF Jr et al. Communities that care. Action for drug abuse prevention. 1992. Jossey-Bass Publishers.

2003-10-10 00:00:00

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