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Possíveis alterações cognitivas decorrentes do AVC

Popularmente conhecido como “derrame”, o termo Acidente Vascular Cerebral (AVC), significa o comprometimento súbito da função cerebral causado por alterações de um ou vários vasos sanguíneos no cérebro. Aproximadamente 80% dos AVC são causados por um baixo fluxo sanguíneo cerebral (Isquemia) e outros 20% por hemorragias. Este tipo de alteração, na maioria das vezes, acarreta grande impacto na vida dos indivíduos e de seus familiares, principalmente devido às dificuldades nas atividades diárias, como se vestir, alimentar, tomar banho, assim como nas funções cognitivas e comportamentais.

De acordo com a organização do sistema nervoso central, uma lesão em um dos lados (hemisférios) do cérebro afeta o lado oposto do corpo. Os pacientes acometidos por um AVC podem perder os movimentos e/ou as sensações do braço e/ou da perna do lado oposto que foi acometido pelo AVC. Por exemplo, uma lesão no lado direito do cérebro, pode causar alterações motoras no lado esquerdo do corpo e vice-versa.

Além das alterações motoras, os pacientes apresentam freqüentemente emoções inapropriadas e flutuações extremas de humor. Eles podem rir frente a algo que não é engraçado ou chorar sem motivo aparente. Estas são respostas comuns nas fases iniciais do processo de reabilitação.

A diversidade de déficits neuropsicológicos pode fazer com que o indivíduo fique intensamente absorvido por si mesmo, com dificuldade de enfrentar suas limitações com humor irritável e deprimido. A inabilidade de se comunicar efetivamente aparece como um dos principais fatores estressores dos pacientes e da família.

A seguir, apontamos algumas das principais alterações do ponto de vista cognitivo, afetivo e social presentes nos pacientes acometidos por um AVC.

? Cognição
A cognição se refere à habilidade de pensar. Problemas cognitivos são muito comuns nas pessoas acometidas por AVC, dependendo da localização e da severidade da lesão. O processamento cognitivo inclui desde a percepção visual, auditiva e tátil de todos os elementos que nos cercam, a atenção sustentada em determinada tarefa, memória, julgamento, capacidade de resolver problemas com o estabelecimento de objetivos, planejamento, iniciativa, controle dos impulsos, monitoramento, avaliação e flexibilidade mental. Estas funções podem ser acometidas pelo AVC e devem ser propriamente avaliadas por um neuropsicólogo para o planejamento do programa de reabilitação específico.

? Comunicação
Nas lesões do hemisfério esquerdo, as principais dificuldades encontram-se na fala e linguagem. É comum observar sintomas como: alteração da fluência verbal, problemas em encontrar as palavras apropriadas, alterações na leitura, escrita com reversões freqüentes das letras ou números, além de problemas em operações que envolvem cálculo e habilidades numéricas.

? Atenção e Concentração
Alguns pacientes podem ter dificuldades de se concentrar frente a distratores internos ou externos como: conversar em local ruidoso, dividir atenção em duas ou mais atividades simultâneas. Para estes, o processamento das informações novas é geralmente mais lento que o de uma pessoa normal. As mensagens longas precisam ser “quebradas” em pequenas partes, para facilitar a compreensão. O paciente acometido por AVC pode ter que repetir as mensagens recebidas para se assegurar que as informações cruciais foram processadas.

? Memória
A memória recente também pode estar afetada, tornando difícil o aprendizado. A capacidade de reter novas informações caracteriza o processo de aprendizado, e uma alteração neste processo pode prejudicar a realização de tarefas simples do dia a dia. A memória para fatos antigos pode estar preservada, enquanto que a capacidade de lembrar o que fez pela manhã, ou o que comeu há poucas horas atrás estar prejudicada.

? Funções Executivas
Dificuldade nas funções executivas inclui a habilidade de colocar metas e objetivos de longo e de curto prazo. As tarefas que envolvem planejamento e organização podem se tornar muito cansativas, sendo difícil uma auto crítica e avaliação pessoal do que foi realizado. Como conseqüência, estes indivíduos podem parecer desorganizados e incapazes de manejar suas vidas sem o auxílio externo de outras pessoas. O uso da linguagem pode refletir esta desorganização, através da dificuldade de seguir o fluxo das idéias para a transmissão de uma determinada mensagem. Pode-se observar uma mudança repentina de assuntos ou a fala vazia, sem foco específico.

? Percepção e funções viso-espaciais
Nas lesões do hemisfério direito, os déficits mais freqüentes são os perceptivos e viso-espaciais. As dificuldades perceptivas são por exemplo: a diplopia ou alteração do campo visual, alterações sensoriais e desatenção geralmente lateralizada para o lado esquerdo. Os déficits viso-espaciais podem gerar dificuldades nas habilidades manuais, desorientação espacial, principalmente em relação a esquerda – direita.

? Comprometimento Social
As dificuldades cognitivas, de comunicação, memória, atenção e nas funções executivas acabam prejudicando as relações sociais. Observa-se que o esforço extra exigido para a comunicação e solução de problemas, pode dificultar uma interação social adequada. Pessoas acometidas por um AVC podem parecer emocionalmente instáveis, tendendo a reagir de forma exagerada, impulsiva ou até completamente frias (sem oscilação emocional). Elas podem dizer ou fazer coisas que parecem inapropriadas. Dentre todas as alterações, a falta de percepção de si mesmo, ou seja, a ausência de auto-crítica sobre as atitudes, pode representar um dos grandes problemas no contato social.

? Humor e Emoção
Em relação aos distúrbios emocionais observa-se que, para os lesionados no lado esquerdo, a reação aguda preponderante é a depressão. Para os lesionados no hemisfério direito, é freqüente observar a indiferença a quase tudo, podendo evoluir até a completa apatia. A maior parte dos estudos aponta que com o passar dos anos, existe uma tendência dos sintomas depressivos ficarem mais proeminentes e graves, acometendo de forma importante a qualidade de vida dos pacientes.

Os transtornos neuropsicológicos e de comportamento associados com as lesões cerebrais são variados e complexos. O tratamento eficiente destas alterações é uma tarefa interdisciplinar integrada e focada na individualidade de cada paciente, a partir das suas necessidades específicas. A equipe de reabilitação inclui, além do médico, profissionais como psicólogo, fonoaudiólogo, terapeuta ocupacional, assistente social, entre outros.

Este texto foi elaborado por Maria Alice Fontes, psicóloga da Plenamente.
 

2003-06-10 00:00:00

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