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Transtorno de Ansiedade Social. Monica Maino, Maria Alice Fontes


Certamente você já conheceu alguém que tem Transtorno de Ansiedade Social. Lembra daquele colega na escola muito tímido que tinha dificuldade para fazer amigos e ficava desesperado nas apresentações e trabalhos em grupo? Agora você deve estar pensando que também ficava tenso em ocasiões em que era preciso falar para a classe toda. Sim! Falar em público é uma situação em que todos nós ficamos desconfortáveis quando não temos muita experiência.

Então, o que afinal, diferencia timidez de ansiedade social?

É o impedimento de realização de uma tarefa. Quando uma criança evita a qualquer custo ir à escola, participar de uma festinha, frequentar o clube ou o grupinho da igreja de modo tão intenso que compromete sua qualidade de vida, podemos considerar a possibilidade de ela sofrer de Transtorno de Ansiedade Social também conhecida como Fobia Social.

Essas pessoas ficam apavoradas só de pensar na possibilidade de viver experiências em que de alguma maneira possam se sentir expostas ou julgadas e algumas chegam a evitar qualquer contato social. Elas se sentem rejeitadas e humilhadas quando interagem com desconhecidos, autoridades, pessoas pouco íntimas ou com pessoas do sexo oposto, independentemente de haver ou não interesse afetivo. Mesmo antes de acontecer a interação, esses indivíduos sofrem por medo excessivo do embaraço e da humilhação que acreditam que sofrerão na frente dos outros.

Geralmente os sintomas desse transtorno se iniciam na infância, ficam mais evidentes durante a adolescência e, se não tratados, podem atingir a vida adulta, refletindo-se no campo profissional e afetivo. Por essa razão, assim como outros transtornos mentais, quanto mais cedo tratado, maiores as possibilidades de sucesso e menor o sofrimento psíquico para seus portadores.

Em nossa clínica, temos recebido e tratado com ótimos resultados muitos pacientes assim. São crianças trazidas pelos pais, geralmente encaminhadas pelos profissionais da escola que percebem seu isolamento, ansiedade de separação (choram se a mãe, pai ou outro responsável não permanece na escola), ou alertam para sinais de que ela possa estar sendo vítima de bullying.

Já os adolescentes, que chegam em maior número, têm dificuldade de fazer parte de um grupo ou não são aceitos por ele, tendem a se esquivar de viagens da turma da escola, festas e recusam-se a apresentar trabalhos, comumente até adoecendo quando os pais não permitem que faltem à aula.

É interessante que alguns portadores deste transtorno procuram tratamento apenas na vida adulta, quando já vivenciaram várias situações traumáticas relacionadas a contatos sociais, mas encontraram estratégias bastante sofisticadas para esquivarem-se delas, como trabalhar em home office, buscar uma função que os proteja de contatos com o público, dedicar-se a cuidar de animais.

Em linhas gerais, o tratamento consiste em trabalhar as crenças distorcidas que os pacientes trazem (“todos me acham estranho”, “eu sou ridículo”, “ a turma rirá de mim”, “a turma vai perceber que estou tremendo e suando e me zoar”, ”sou um desastre”), trabalhar possíveis situações traumáticas que tenham vivenciado (já riram dele ou fizeram críticas de maneira hostil, ou ele as sentiu assim) e, muito importante: ajudá-los a desenvolver habilidades sociais.

Um indivíduo é considerado habilidoso socialmente quando consegue decodificar o que é esperado dele em cada tipo diferente de interação social e tem um desempenho que maximiza seus ganhos nesses contatos sociais. Como exemplo, podemos citar a situação enfrentada por um paciente da clínica. Este adolescente havia estudado desde o infantil em uma tradicional escola de São Paulo e tinha um pequeno grupo de amigos, em que era aceito...até que prestou vestibular e foi aprovado em uma universidade. No primeiro dia de aula, quando se viu sozinho e teve que descobrir qual era sua sala, encontrar uma carteira, cercado de outros jovens vindos das mais variadas realidades socioculturais, entrou em pânico, saiu da sala no intervalo, pediu para o pai buscá-lo e esse senhor não foi capaz de convencê-lo nem a trancar a matrícula, nem a voltar no dia seguinte e muito menos a tentar ingressar em outra universidade.

As habilidades sociais necessárias nesta situação, que pode parecer muito cotidiana, eram: perguntar a um funcionário da escola onde se encontravam as relações de turmas, agradecer, pedir licença ao chegar atrasado na sala, cumprimentar os novos colegas sentados próximos de sua carteira, sorrir, fazer contato visual...

É papel do psicólogo treinar habilidades sociais, como:

1) Habilidades sociais de comunicação: fazer e responder perguntas; pedir e dar feedback; iniciar e manter conversação; gratificar e elogiar;

2) Habilidades sociais de civilidade: dizer por favor; agradecer; apresentar-se; cumprimentar; despedir-se;

3) Habilidades sociais assertivas: manifestar opinião, concordar; discordar; fazer, aceitar e recusar pedidos; desculpar-se e admitir falhas; interagir com autoridade; estabelecer relacionamento afetivo/sexual; encerrar relacionamento; expressar raiva e pedir mudança de comportamento; lidar com críticas;

4) Habilidades sociais empáticas: parafrasear, refletir sentimentos e expressar apoio;

5) Habilidades sociais de trabalho: coordenar grupo; falar em público; resolver problemas, tomar decisões e mediar conflitos; habilidades sociais educativas; e

6) Habilidades sociais de expressão de sentimentos positivos: fazer amizade; expressar solidariedade e cultivar o amor.

Para o contexto universitário, as habilidades sociais mais relevantes para o bom desempenho são as envolvidas no falar em público - apresentação de seminários, falar com autoridade, responder perguntas feitas pelo professor, reclamar notas e avaliações com o professor, tecer comentários e dar recados em sala de aula, trabalhar em grupo (ouvir, concordar/discordar, lidar com críticas, negociar, argumentar, perguntar, responder perguntas); lidar com relacionamentos amorosos – iniciar, manter ou terminar relacionamentos e na relação com familiares: comunicar-se, expressar sentimento, lidar com críticas

A Terapia Cognitivo Comportamental, utilizada pelos profissionais de nossa clínica é uma abordagem reconhecidamente eficiente neste casos. 

O paciente lista situações que lhe causam desconforto, em ordem crescente e vamos trabalhando a cada atendimento os pensamentos, as crenças que estão por trás da aversão por cada uma das situações listadas, bem como os sentimentos suscitados por eles. O terapeuta encoraja o paciente a enfrentar fora do atendimento também estas situações.

No caso do universitário que não conseguia voltar à faculdade foi um longo caminho. A princípio começamos propondo que enfrentasse as situações que julgava mais simples: cumprimentar vizinhos no elevador, cumprimentar estranhos, fazer um pedido na lanchonete que frequentava com o pai... A cada passo bem-sucedido a autoconfiança do paciente era incrementada, o que o tornava mais fortalecido para encarar a próxima. Quando o paciente não conseguia, tentávamos juntos detectar o que o impedira e era proposta uma outra interação social menos aversiva, como pedir o jantar por telefone.

Quando constatamos que os casos de adolescentes com esse transtorno vinham aumentando na clínica, percebemos que seria bastante promissor montar um grupo com eles, para que pudessem perceber que seu problema não era tão raro quanto pensavam, para que se identificassem com outros adolescentes que sofriam com as mesmas questões e para que tivessem oportunidade de praticar ali as habilidades trabalhadas na terapia individual.

Esse tipo de tratamento é raro, mesmo numa cidade das dimensões de São Paulo e o grupo de adolescentes para desenvolver Habilidades sociais foi um sucesso e motivo de muito orgulho para nossa equipe. Formado por adolescentes de 13 a 21 anos, o grupo se reunia mensalmente, intercalando atividades na clínica com atividades fora dela (shoppings, instituição com crianças com câncer, parques). Tudo planejado em conjunto com eles, que, para isso, precisavam interagir entre si. Todas as tarefas propostas eram realizadas em duplas ou trios e o desempenho de cada um era avaliado pelos seus pares.

Em raros casos, em que a ansiedade era muito intensa e o sofrimento psíquico enorme, os pacientes foram encaminhados ao nosso psiquiatra e medicados.
Acreditamos que esse modelo (terapia individual, terapia em grupo e tratamento medicamentoso, quando necessário) funciona muito bem no tratamento do Transtorno de Ansiedade Social.

Os pacientes têm uma curiosidade exacerbada em compreender a origem desse sofrimento e perguntam com frequência ao terapeuta: “Por que eu sou assim? ”
A resposta é que, como em outros transtornos mentais, o peso não é apenas do fator genético, mas também do modelo e das experiências de vida.

Os pais são o primeiro modelo das crianças. Pais medrosos, que veem o ambiente social como assustador e lidam mal com novas experiências (visitas, viagens de aventura, mudanças de rotina) ensinam com seu comportamento e suas crenças que o mundo é algo ameaçador. Pais que encorajam os filhos a fazer as próprias escolhas, calcular riscos e assumir responsabilidades ensinam que os desafios e adversidades constituem oportunidades de aprendizagem. Seus filhos tendem a ser mais seguros; em contrapartida, crianças superprotegidas podem ter problemas para enfrentar novas experiências. Crianças submetidas à violência ou ao abuso também tendem a ter problemas nos contatos sociais.

A outra referência que temos na infância é a escola. Sabemos que crianças que têm experiências de rejeição e sofrimento nos relacionamentos com seus pares na infância tornam-se mais vulneráveis ao surgimento de ansiedade social. As outras crianças geralmente percebem que esta é pouco confiante, sente-se fragilizada e hostilizam-na mais. Isso gera um ciclo do qual muitos não conseguem nem sair nem pedir ajuda. O bullying e a vitimização colaboram para que a criança se torne cada vez mais retraída e isolada, esquivando-se dos contatos sociais. Essa situação pode se complicar muito na adolescência, caso não haja uma intervenção.

É preciso ressaltar que nesta fase do desenvolvimento o grupo tem uma importância vital na vida das pessoas. O adolescente precisa sentir-se pertencente a um grupo e importante dentro dele, assim como a criança necessita sentir-se importante e pertencente à família. Um adolescente excluído do grupo ou hostilizado por ele vivencia enorme sofrimento psíquico, o que pode ser traumático para alguns.

Essas situações sociais vividas costumam ser interpretadas de maneira distorcida, já que as lembranças negativas são guardadas com mais facilidade. Um tipo característico de pensamento nesses pacientes é o “e se? ”, como por exemplo: “E se eu esquecer tudo na hora da apresentação? ”, “e se eu gaguejar? ”, “e se eu ficar ansioso e me descontrolar no elevador? ”, ou “e se eu ficar sozinho na festa e ninguém falar comigo? ”). Daí o comportamento de tentar a todo custo evitar situações que causem tanto sofrimento, como entrar em elevadores com mais pessoas, fazer apresentações acadêmicas, ir a festas ou reuniões sociais.

Dessa forma, é indesejável que este tipo de pensamentos, bem como os comportamentos de esquiva dele recorrentes se prolonguem até a idade adulta, não só porque nesta outra fase da vida a falta de habilidades sociais e as dificuldades de interação social podem ter impactos da vida acadêmica, profissional e amorosa, mas também porque a fobia social aumenta o risco do abuso de álcool e outras drogas. Estas podem funcionar para aliviar a ansiedade. O risco de depressão, suicídio e outros problemas na vida adulta também são maiores em portadores de transtorno de ansiedade social, quando não tratado. Por outro lado, quando tratados precocemente, os pacientes costumam se sair muito bem.

 

2019-10-08 00:00:00

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