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Como as emoções interferem no aprendizado? Andrea Fernandez, Maria Alice Fontes


As emoções têm uma influência substancial sobre os processos cognitivos dos seres humanos. Todas as funções que participam do processo de aprendizagem (percepção, atenção, memória, raciocínio e resolução de problemas) são de alguma maneira moduladas pelas emoções. A atenção é afetada pelas emoções, de forma que tudo o que gostamos acaba tendo uma relevância na seleção do foco atencional, bem como motivando a ação e o comportamento. Este controle atencional e executivo está intimamente ligado aos processos de aprendizagem, pois só conseguimos aprender, aquilo que focamos a atenção de forma relevante.

A emoção também facilita a codificação e ajuda a recuperar informações de forma eficiente. No entanto, os efeitos da emoção na aprendizagem e na memória nem sempre acontecem numa única direção. Estudos mostram que a emoções podem também prejudicar a retenção das informações e da memória de longo prazo, dependendo de uma série de fatores.

Como as emoções afetam o aprendizado?

Somos movidos pela afetividade, tanto na sua forma positiva quanto na negativa. Um encorajamento nos move de forma a buscar mais desafios, enquanto uma reprimenda ou crítica pode nos afetar negativamente. Nas duas situações, a afetividade opera como elemento de desenvolvimento, quer seja no sentido de criar mecanismos de compreensão e aceitação ou no sentido de defesa e repulsa devido as sensações geradas pelas informações.

A afetividade ocupa um lugar extremamente importante desde o início da vida do ser humano. Na idade escolar, exerce um papel fundamental ao influenciar a aprendizagem e o desenvolvimento da inteligência.

Podemos descrever o processo de aprendizagem como um solo fértil, com espaço livre e pronto para um grande plantio. Esse solo só precisa receber as sementes, ser regado e cultivado a fim de dar bons frutos. Esse processo do plantio, que em linguagem edifica o processo de aprendizagem se inicia através de um input afetivo, principalmente na infância. Quando o cérebro está em desenvolvimento, as palavras de afirmação são ferramentas relevantes para assegurar a autonomia, autoestima e independência.

Para Henri Wallon, psicólogo, filósofo, médico e político francês, a afetividade surge antes do desenvolvimento da inteligência e, ainda, a afetividade e cognição não se dissociam, mas agem simultaneamente em várias atividades. Em certos momentos desse desenvolvimento há o predomínio da afetividade, e em outros, da cognição, mas sempre de maneira integrada.

Segundo Piaget (1996), o conhecimento ocorre através interação entre o sujeito e o objeto (estudo). A aprendizagem se dá como resultado da interação entre a afetividade, interesse e motivação para a aprendizagem. Piaget afirma que a emoção influencia positiva ou negativamente os processos de aprendizagem, acelerando ou atrasando o desenvolvimento intelectual.

O que acontece no cérebro com as emoções que influencia o aprendizado?

Os sentimentos positivos liberam hormônios e neurotransmissores que provocam alterações no funcionamento dos nossos órgãos, e também em nosso humor, emoção e no pensamento, aumentando assim a sensação de bem-estar. Por sua vez, os sentimentos negativos, assim como a ansiedade e a angústia, podem criar um bloqueio e impedir a aprendizagem.

O conteúdo emocional das memórias também afeta a maneira como estas são armazenadas e evocadas. Evidências apontam que os eventos emocionais são lembrados mais claramente, com precisão e por período de tempo mais longos do que os eventos neutros, ou seja, retemos muito mais as situações cheias de emoções, quer seja negativa ou positiva.

A memória emocional parece envolver a integração de uma complexidade de redes neurais cognitivas e emocionais, nas quais a ativação da amígdala aumenta o processamento de estímulos que estimulam a emoção e também modula a consolidação da memória. Da mesma forma, a ativação do córtex pré-frontal aumenta a processamento estratégico e semântico, que afetam a memória e os funções cognitivas como um todo.

A aprendizagem nada mais é do que uma junção de muitos estímulos extrínsecos e intrínsecos processados pela atenção, memória, interesses, desejos, que permeiam a mente e o cérebro humano. Portanto todos esses fatores devem estar em sintonia e devem ser estimulados de maneira saudável e equilibrada para que o aprendizado ocorra. Qualquer interferência afetará este processo. Há uma correlação forte entre um ambiente rico de estímulos e o aumento das sinapses (conexões entre as células cerebrais).

O cérebro possui um sistema dedicado à motivação e à recompensa. Quando uma criança é afetada positivamente, as áreas de prazer recebem uma dose de dopamina, substância que aumenta o bem-estar e mobiliza a atenção. Quanto mais motivados e interessados em determinada atividade, mais dopamina é liberada e mais facilmente as atividades serão lembradas. Ou seja, dali em diante, a ação ou objeto que proporcionou essa sensação alegre será reforçada e a criança vai querer repeti-la. Já a criança que não encontra prazer no aprendizado registra menos retenção de conteúdo e consequentemente baixos níveis de desempenho – nestas pessoas os níveis de dopamina também são mais baixos. O efeito do prazer por sua vez não ocorre quando a tarefa a ser cumprida é fácil demais e não há desafio. Atividades muito difíceis, que ultrapassam a base de conhecimento prévio das crianças naquele momento, também serão abandonadas, pois o cérebro não encontra o prazer do sistema de recompensas.

Qual o papel do educador?

A primeira tarefa do educador é gerar conexão com o aluno, através do interesse genuíno pela sua pessoa, criando um ambiente propício para uma relação afetiva. Essa relação afetiva possibilitará que o aluno continue selecionando sua atenção e processando as informações de forma a codificá-las e armazená-las eficientemente.
Uma relação de confiança entre o professor e o aluno, incentiva o aprendiz a não ter medo de cometer erros e por consequência se arriscar em novas descobertas. A partir do momento em que o aluno se sente capaz de aprender, ele abre sua mente para a curiosidade buscando soluções. E quanto mais tentativas, mais chances de acerto. A memória e a concentração operam mais livremente em ambientes com menos julgamento.

Quando a relação entre educador e educando é saudável, o aprendizado se torna mais eficiente e passa apresentar maior engajamento de ambas as partes. Ter uma boa convivência dentro e fora da sala de aula é fundamental para garantir um ambiente saudável e de aprendizado. Mas caso haja relações conflituosas e de tensão, sabe-se que o aprendizado será diretamente afetado.

Efeitos da negligência e privação no aprendizado

Pesquisas conduzidas em Yale e Harvard constatam que crianças privadas de afeto apresentam, entre outros prejuízos, alterações no funcionamento de áreas cerebrais associadas ao processamento das emoções. As relações traumáticas e de negligência podem interferir negativamente no processamento da atenção, já que o sistema de alerta permanece sempre ativo e cheio de emoções negativas.

Um ambiente hostil, cheio de medo, raiva e ameaça, provoca reações negativas no cérebro. A região do cérebro, responsável pelo processamento das emoções, denominada amígdala, responde às ameaças percebidas, bloqueando o fluxo de informações para os centros de aprendizagem do cérebro, embaralhando os circuitos neurais, impedindo assim a concentração e que a aprendizagem ocorra. Ameaças, stress e punições terão impactos negativos no desenvolvimento cognitivo da criança.

Ambientes de constantes frustrações causam também um aumento no nível de cortisol, hormônio do estresse, que elevada a chance de morte de células cerebrais no hipocampo, que é imperativo para a formação da memória. Em suma, para obtermos um bom desempenho cognitivo, é preciso que haja interação de afetividade positiva, confiança, autoestima e entusiasmo com o processo de ensino-aprendizagem.

Mensagem final para os educadores e famílias

Além de ser extremamente prazerosa a troca de afeto, ela influenciará não apenas o temperamento e a personalidade da criança, mas também no seu potencial de crescimento cognitivo. O desenvolvimento neuropsicológico depende do estabelecimento de vínculos fortes e positivos. Por isso a importância de oferecer à criança um cuidado responsivo, amoroso e estimulador.

Alguns minutos de conexão verdadeira, bom humor, escuta genuína, palavras de apoio e reconhecimento frente à insegurança, o olho no olho na hora de encorajar, uma um sorriso de incentivo reconhecendo os sentimentos quando tudo dá errado pode fazer toda a diferença. São gestos corriqueiros e aparentemente despretensiosos, que ajudarão o aprendizado e a firmação de crianças felizes e empáticas em todas as relações sociais.

Bibliografia:

BEZERRA, Ricardo José Lima. Afetividade como condição para a aprendizagem: Henry Wallon e o desenvolvimento cognitivo da criança a partir da emoção. Revista Didática Sistêmica. UFRS, 2006.

CHAI M. Tyng, Hafeez U. Amin, Mohamad N. M. Saad, and Aamir S. Malik. The Influences of Emotion on Learning and Memory. Front Psychol. 2017; 8: 1454. Published online 2017 Aug 24. doi: 10.3389

COSENZA,Ramon M. Neurociência e Educação - Como o Cérebro Aprende. Porto Alegre: Artmed, 2011.

PIAGET, Jean. The relation of affetivity to intelligence in the mental development of the child. In Bulletin of the Menninger Clinic. – 1962, vol. 26, no 3.

RELVAS, Marta Pires. Fundamentos Biológicos da Educação – Despertando Inteligências e Afetividade no processo da Aprendizagem. Rio de Janeiro: WAK Editora, 2010.

SALLA, Fernanda. O Conceito de afetividade de Henry Wallon. novaescola@fvc.org.br. Outubro 2011.

WALLON, H. (1941-1995). A evolução psicológica da criança. Lisboa, Edições 70.

 

2019-08-05 00:00:00

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