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Sentimento de culpa: como devemos tratá-lo? Claudia Petlik Fischer, Maria Alice Fontes


O que é o sentimento de culpa?

A culpa é um sentimento subjetivo que se apresenta à consciência quando o indivíduo avalia seus atos de forma negativa, sentindo-se responsável por falhas, erros e imperfeições.

A culpa pode ser um dos sentimentos mais difíceis de ultrapassar, uma vez que mantém o indivíduo preso ao passado. Durante a infância, é comum aprendermos a sentir culpa e vergonha quando cometemos um erro. Essa memória pode persistir até a vida adulta de forma que os erros são sempre causa de sofrimento, em vez de serem oportunidades de aprendizado.

Este sentimento negativo de culpa gera uma série de pensamentos distorcidos e aprofunda crenças sobre si mesmo, que influenciam como cada um sente e se comporta. Ao invés de buscar alternativas e possibilidades de mudança, a culpa faz com que as pessoas fiquem se lamentando e se sentindo mal. Como consequência, o indivíduo não aprende com seus erros e fica apenas repetindo as mesmas atitudes. Assim como as diferentes emoções, a culpa e a vergonha tem uma função adaptativa, ou seja, ela é própria da natureza humana e nos direciona para a nossa própria evolução pessoal.

Quais são as regiões cerebrais relacionadas a culpa e a vergonha?

Pesquisas recentes apontam que as regiões do córtex orbitofrontal direito, estão altamente correlacionados com a propensão individual a experimentar a culpa. A atividade cerebral relacionada a culpa também foi observada na córtex pré-frontal dorsomedial, uma região também relacionada a "Teoria da Mente", as áreas do cérebro que processam as informações de auto referência, ou seja, a inferência no conhecimento que temos acerca de nós próprios ou no conhecimento abstrato que temos sobre o mundo.

Os psicopatas ou sociopatas, por exemplo, dificilmente sentem culpa por terem feito mal a outras pessoas. Ao contrário, eles consideram-se como os juízes deles mesmos, não levando em conta o julgamento do outro ou sentimento de vergonha por alguma atitude que tomou.

Portanto, se você sente culpa por algo que fez ou deixou de fazer, você está no grupo da maior parte dos seres humanos. O lado positivo é que quem sente culpa tem maior capacidade de empatia e habilidades sociais. 

Quais evidências existem de consequências ruins em função do sentimento de culpa?

Muitos estudos já concluíram que o sentimento de culpa é um fator chave na procrastinação. Sentimos culpa por alguma coisa que fizemos e então hesitamos em iniciar uma tarefa nova, talvez por medo de cometer outros erros. Além disso, o próprio fato de postergar o que deveríamos fazer no momento, nos traz sentimento de culpa, que, por sua vez, muitas vezes enfraquece o sentimento agradável que poderíamos ter por evitar a tarefa. Pesquisas também constataram que, quando você se perdoa por postergar, pode evitar de fazer isso novamente no futuro.

Qual a relação entre sentimento de culpa e depressão?

Há evidências claras que o sentimento de culpa pode contribuir para o aparecimento da depressão e vice versa. Um estudo de neuroimagem feito em 2012 constatou que as pessoas que estavam com depressão apresentam reação de culpa aumentada. Para as pessoas que já tiveram depressão, o sentimento de culpa está menos associado ao conhecimento de comportamentos socialmente aceitáveis do que está no caso de indivíduos não deprimidos. Ou seja, os indivíduos com depressão podem culpar-se excessivamente de uma maneira que não é voltada à busca de soluções.

Além disso, as pesquisas mostram que os cérebros de pessoas com depressão respondem diferentemente aos sentimentos da culpa, mesmo após os sintomas terem melhorado.

Homens e mulheres respondem de forma diferente em relação a culpa?

As mulheres tendem a sentir mais culpa. As pesquisas confirmam o estereótipo cultural segundo o qual as mulheres tendem a sentir mais culpa que os homens. Um estudo espanhol de 2010 concluiu que as mulheres sentem culpa mais frequente e mais intensamente que os homens. As mulheres também têm escores mais elevados que os homens nas medidas de sensibilidade interpessoal. A diferença nos níveis de sentimento de culpa entre homens e mulheres na faixa dos 40 aos 50 anos foi especialmente marcante. Os pesquisadores observaram que a falta de sensibilidade interpessoal pode ser um fator fundamental a contribuir para os baixos níveis de sentimento de culpa dos homens.

Quando o sentimento de culpa se torna preocupante?

O sentimento de culpa moderado pode deter maus comportamentos. Mas o sentimento de culpa exacerbado pode, na realidade, nos manter presos em padrões comportamentais negativos. 


A pesquisadora Brené Brown, no livro “A coragem de ser imperfeito” descreve que a culpa é considerada saudável quando nos move em direção a pensamentos e comportamentos positivos. Com ela, podemos criar novas alternativas para sair daquela situação desconfortável que já aconteceu, e na grande maioria das vezes, não temos controle pois ficou no passado. Este tipo de reflexão saudável nos prepara para novas rotas e evitamos que tomemos as mesmas atitudes que tragam novamente o sentimento de culpa. É a sensação de “lições aprendidas” e “vida que segue”.

Por outro lado, a culpa torna-se preocupante quando pensamentos e comportamentos são direcionados de uma maneira que parece não se chegar a lugar nenhum, a não ser à autodestruição. Ao cometer um erro, ao invés de pensar “Me desculpe, eu cometi um erro”, a culpa tóxica nos leva a dizer “Me desculpe, eu sou um erro” (Brown, 2012).

Como tratar o sentimento de culpa?

Romper com o ciclo da culpa que nos paralisa requer a vontade de se abrir para um processo de autoconhecimento. Entender os próprios pensamentos, sentimentos e comportamentos diante de situações de culpa pode contribuir para a revisão de eventuais distorções cognitivas para uma vida emocional mais saudável. A superação desse ciclo, além de promover uma melhor autoestima aumenta a nossa capacidade de empatia com o outro e consigo mesmo.

Em alguns casos, é muito difícil conseguir fazer este processo sozinho. O psicólogo, um profissional especializado, poderá ajudar com um processo de psicoterapia e com as orientações adequadas.


Bibliografia:

  • Ullrich Wagner, Karim N'Diaye, Thomas Ethofer, Patrik Vuilleumier, Guilt-Specific Processing in the Prefrontal Cortex, Cerebral Cortex, Volume 21, Issue 11, November 2011, Pages 2461–2470,
  • Green S, Lambon Ralph MA, Moll J, Deakin JF, Zahn R. Guilt-selectivef unctional disconnection of anterior temporal and subgenual cortices in major depressive disorder. Arch Gen Psychiatry. 2012 Oct;69(10):1014-21.
  • Etxebarria, I., Ortiz, M. J., Conejero, S. y Pascual, A. Intensity of habitual guilt in men and women: Differences in interpersonal sensitivity and the tendency towards anxious-aggressive guilt. Spanish Journal of Psychology, 2009; 12 (2): 540-554
  • Renne Brown. A coragem de ser imperfeito: Como aceitar a própria vulnerabilidade, vencer a vergonha e ousar ser quem você é. Editora Sextante (2012). 
  • https://doi.org/10.1093/cercor/bhr016
  • https://www.princeton.edu/news/2013/10/08/weighed-down-guilt-research-shows-its-more-metaphor?section=topstories
  • https://www.psychologytoday.com/blog/dont-delay/201302/what-guilt-teaches-us-about-procrastination
  • https://www.sciencedaily.com/releases/2010/01/100125123305.htm
  • https://greatergood.berkeley.edu/article/item/is_guilt_good
  • https://www.sciencedaily.com/releases/2012/06/120604181847.htm
  • http://www.itcrcampinas.com.br/pdf/helio/analise_comportamental_sentimento_culpa.PDF

2019-04-14 00:00:00

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