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O bilinguismo em pauta. Silvia Pellegrini Ruschel, Maria Alice Fontes.


Desde o século XX o termo bilinguismo vem se tornando cada vez mais complexo de se definir, devido às diferentes compreensões teóricas a respeito deste termo.

Uma das conceituações de bilinguismo pode ser encontrada no dicionário Oxford (2000:117) onde o bilinguismo é definido como: “ser capaz de falar duas línguas igualmente bem porque as utiliza desde muito jovem” .

Na compreensão popular, a pessoa bilíngue é aquela que consegue falar duas línguas perfeitamente.

Não há dúvida de que quanto antes uma pessoa aprende uma segunda língua, maior facilidade terá em desenvolvê-la.

A aquisição bilíngue da linguagem refere-se ao resultado de uma exposição muito precoce, simultânea, regular e contínua a mais de uma língua (Houwer, 1997).

Entretanto, se a criança em grande parte de seu tempo usar apenas um idioma, dificilmente a escola, mesmo que com proposta bilíngue, garantirá tal desenvolvimento.

O bilinguismo pode prejudicar o desenvolvimento da linguagem?

De qualquer forma, paralelamente ao desejo crescente de colocar o filho em contato com outra língua de forma natural, gradativa e lúdica o mais cedo possível, vem a angústia das dúvidas em relação aos supostos prejuízos do bilinguismo.

Neste momento surgem perguntas do tipo: as crianças que aprendem duas línguas podem ter dificuldades em seu desenvolvimento de linguagem? É normal a criança misturar as duas línguas que conhece? O bilinguismo pode atrasar o desenvolvimento da linguagem oral?

A idéia do bilinguismo causar distúrbios de linguagem é uma visão superada e sabe-se, inclusive, que a exposição da criança a duas línguas a incentiva a se concentrar nas propriedades formais de cada uma delas (Pleh e col., 1987).

Portanto, ao contrário do que se pensava, o bilinguismo pode contribuir para o desenvolvimento da linguagem, ajudando inclusive no desenvolvimento da habilidade de consciência metalinguística, que consiste na capacidade de refletir sobre a própria linguagem.

O que é consciência metalinguística?

Existem diferentes manifestações que podem ser consideradas atividades metalinguísticas, como por exemplo: apreciar rimas, realizar correções gramaticais, contar palavras em uma sentença, julgar se palavras começam ou não com o mesmo som, entre outras.

Verifica-se, então, que a consciência metalinguística é um conjunto de habilidades bastante amplo, mas o que há em comum nas atividades citadas é que todas pressupõem manipulação, ação e reflexão sobre a linguagem.

Dependendo do aspecto envolvido da linguagem, podemos classificar as habilidades metalinguísticas da seguinte forma:

Tarefas que exigem atenção e reflexão sobre os sons da fala são atividades de consciência fonológica;

Tarefas de reflexão sobre os aspectos gramaticais da linguagem são atividades de consciência sintática;

Tarefas envolvendo relações entre sentenças e os contextos em que estão inseridas, são denominadas consciência pragmática.

Embora se saiba que crianças bilíngues possam ter maior nível de consciência metalinguística, seria importante aprofundar em qual tipo de atividade essas crianças apresentariam maior desenvolvimento.

Apesar deste enriquecimento da linguagem, é comum observarmos em crianças bilíngues a “mistura” das línguas faladas, ou seja, a criança pode produzir, por exemplo, uma frase alternando elementos do português e inglês, o que a princípio não indicaria alguma anormalidade.

Além disso, não somente em um enunciado a criança pode alternar códigos, mas também em um trecho mais longo do discurso (Houwer, 1997), demonstrando a capacidade de utilizar determinada língua dependendo de seu interlocutor.

O desenvolvimento bilíngue

Em relação ao desenvolvimento bilíngue, sabemos que a criança segue o mesmo curso de uma criança monolingue.

Assim como a criança monolingue, a criança bilíngue também passa por um estágio de balbucio (emissão de sons e sílabas), inicia as primeiras palavras de forma isolada por volta de 1 ano, para depois de um período juntá-las elaborando frases, inicialmente mais simples e depois mais complexas.

Desta maneira não se espera maiores atrasos de fala em crianças bilíngues, mas não devemos esquecer que, assim como existem variações cronológicas de desenvolvimento individuais entre as crianças que falam apenas uma língua, o mesmo pode ocorrer entre as bilíngues.

Em algumas situações em que pais e professores suspeitam de atraso de linguagem em função do bilinguismo, recomenda-se consultar um fonoaudiólogo que poderá auxiliar a família em como proceder com a criança, avaliando se é necessário a exclusão de uma língua.

Sabe-se que dominar mais de um idioma pode trazer benefícios para o indivíduo ao contribuir no desenvolvimento linguístico, e que a habilidade para esse aprendizado é maior entre o nascimento e os 10 anos.

Entretanto é válido avaliar se esse aprendizado está adequado às possibilidades cognitivas e emocionais da criança e seu interesse, evitando oferecer uma estimulação além do ritmo de desenvolvimento de cada um.

Referências
MEGALE, Antonieta Heyden. Bilingüismo e educação bilíngüe – discutindo conceitos. Revista Virtual de Estudos da Linguagem – ReVEL. V. 3, n. 5, agosto de 2005.Availablefromhttp://www.revel.inf.br/files/artigos/revel_5_bilinguismo_e_educacao_bilingue.pdf access on 17 May 2021.
 

 

2021-03-23 00:00:00

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