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Novos tratamentos para a Depressão: fatos sobre o spray nasal de Escetamina além do que já foi dito na mídia. Maurício Henriques Serpa


Atualmente, segundo a Organização Mundial da Saúde, há mais de 300 milhões de pessoas vivendo com depressão ao redor do mundo, e os números não param de subir. Muito se discute a respeito dos motivos para tal endemia, assim como as possíveis formas de tratamento para o “mal do século XXI”. Apesar de já haver abordagens farmacológicas e psicoterapêuticas bastante eficientes para a depressão, muitos não respondem bem aos tratamentos atuais. Por conta disto, milhares de pesquisadores mundo afora têm se debruçado sobre as bancadas de laboratórios de instituições públicas e privadas para procurar novas ferramentas terapêuticas.

Recentemente, como divulgado pela mídia, uma nova formulação de um antigo anestésico tem sido apontada como uma nova alternativa para o tratamento da depressão. O spray nasal de Escetamina, que será comercializado nos EUA com o nome de Spravato®, é a mais nova aposta dos médicos para enfrentar os sintomas do transtorno. Com a aprovação pelo Food and Drug Administration (FDA), instituição de regulamentação norte-americana, o novo medicamento logo deve chegar ao Brasil.

Entretanto, é importante que profissionais de saúde, pacientes e familiares estejam bem orientados sobre o que esperar da Escetamina. Abaixo, discutiremos alguns pontos sobre este novo tratamento para depressão. Boa leitura!

O spray de Escetamina poderá ser usado em todo paciente que tem depressão?

Apesar de mostrar sua boa e rápida eficácia para o tratamento da depressão, o spray só foi avaliado em estudos com pacientes portadores de depressão refratária, ou seja, que não haviam apresentado boa resposta aos antidepressivos convencionais. Além disso, os pacientes receberam a Escetamina como adjuvante, em outras palavras, todos estavam fazendo uso de pelo menos um medicamento antidepressivo durante o período de estudo. Portanto, a aprovação pelo FDA só autoriza o uso da Escetamina em pessoas que já tenham feito tratamentos prévios sem uma boa melhora. Além disso, os pacientes deverão estar tomando algum tipo de antidepressivo para poderem receber o Spravato®. Mas novos estudos, em especial com pessoas em vigência de um episódio depressivo e sem tratamentos prévios, devem começar a sair do forno em breve e, consequentemente, a medicação poderá ser usada com maior liberdade.

Qual a importância deste novo medicamento?

Além da já descrita eficácia para o tratamento de depressão refratária, quando os recursos para ajudar o paciente se tornam escassos, a grande importância da Escetamina como tratamento dos sintomas de humor é o fato deste fármaco atuar em vias de neurotransmissores diferentes das influenciadas pelo tratamento com os antidepressivos convencionais.

Os antidepressivos mais usados atualmente, chamados de inibidores seletivos da receptação de serotonina (ISRS) e inibidores seletivos da receptação de serotonina e noradrenalina (ISRSN), como a Fluoxetina, o Escitalopram e a Venlafaxina, atuam diretamente sobre os neurotransmissores descritos em seus nomes, serotonina e noradrenalina. Já a Escetamina parece ter seu mecanismo de ação baseado na modulação de outro neurotransmissor, o glutamato.

Esta mudança está baseada em novas teorias biológicas sobre a depressão que colocam o glutamato como protagonista, porém sem menosprezar os papeis da noradrenalina e serotonina no transtorno. Tal mudança de paradigma abre margem para o desenvolvimento de outros fármacos que possam atuar também nas vias do glutamato, possivelmente ainda mais eficazes e com menos efeitos colaterais que a Escetamina.

O que seria a “dissociação” e os “efeitos dissociativos” que esta medicação pode provocar?

O termo dissociação é utilizado de forma técnica para descrever um estado no qual há uma desconexão entre nossa mente e nosso corpo ou com o mundo exterior. Este fenômeno psicopatológico pode acontecer através de estímulos psicológicos, como pela hipnose, face a situações estressantes e até mesmo em cerimônias religiosas, além de também poder ser induzido por substâncias, como medicamentos ou drogas ilícitas.

Tal reação tem sido frequentemente observada em pacientes que receberam Escetamina/Quetamina para o tratamento de depressão. Este efeito pode ser bastante angustiante e limitar o uso do medicamento. Vivências dissociativas são mais frequentes em pessoas com características específicas de personalidade. Portanto, com mais estudos sobre o tema, é possível que no futuro consigamos definir de antemão o risco deste efeito adverso ocorrer, assim ponderando se a aplicação da Escetamina será indicada ou não para determinado paciente.

Fora os efeitos dissociativos, a medicação também pode causar sintomas psicóticos, em especial alucinações e vivências paranoicas. Para pessoas com risco maior para transtornos psicóticos, como familiares de pacientes com esquizofrenia, é possível que a aplicação da Escetamina seja perigosa, podendo inclusive ser um gatilho para desenvolver um episódio psicótico. Novamente, mais estudos precisam ser realizados, principalmente com pessoas com risco elevado para as psicoses, para que possamos usar o fármaco de forma mais cautelosa evitando-se este tipo de reação adversa.

E este remédio pode viciar?

Este é um ótimo ponto que, porém, precisa ser mais profundamente discutido e avaliado por estudos científicos. A Quetamina (ou Cetamina), fármaco do qual se deriva a Escetamina, já foi bastante utilizada como droga de abuso nos anos 1980 e 1990, especialmente como uma club drug, que são as drogas utilizadas em raves e “baladas”. Conhecida nos países de língua inglesa como Special K, ela era procurada pelos usuários pela sensação de euforia, além de causar alucinações, vivências de “estar fora do corpo” e imobilidade.

Um dos motivos pelos quais o FDA aprovou a aplicação do spray somente em clínicas especializadas certamente é um cuidado necessário para que as pessoas não passem a abusar da substância. De qualquer forma, é preciso que a comunidade científica e médica fique atenta aos riscos conforme o tratamento com Spravato® se difundir pelos EUA e por outros países nos quais for aprovado seu uso terapêutico.

A Escetamina só serve para tratar depressão?

É sabido que os antidepressivos convencionais ajudam muitas pessoas que sofrem de outras transtornos que não a depressão, como o Transtorno Obsessivo Compulsivo e o Transtorno de Pânico, por exemplo. Porém, como o estudo e o uso da Escetamina/Quetamina em transtornos de saúde mental ainda é muito recente, ainda não sabemos quanto este medicamento poderá ajudar pessoas que sofrem de outros problemas.

Um diferencial que começa a despontar nos estudos é sua eficácia no tratamento dos sintomas depressivos em paciente com Transtorno Afetivo Bipolar. A “depressão bipolar” é uma condição em geral mais grave e de difícil tratamento do que a depressão mais convencional (Transtorno Depressivo Maior). Portanto, se a eficácia do Spravato® também se comprovar para quem sofre do Transtorno Bipolar, será uma ferramenta muito importante na prática clínica.

Outro fato importante é a capacidade da Escetamina reduzir abruptamente a intenção e o risco de suicídio. É claro que são necessários mais estudos, mas tal efeito pode ser muito importante no futuro para evitar que pacientes precisem ser internados devido a uma chance iminente de comportamentos suicidas. Por exemplo, um paciente depressivo sem tratamento que procura um serviço de emergência pode estar apresentando pensamentos sobre tirar sua própria vida por estar insuportavelmente angustiado. Neste caso, poderia receber uma dose de Spravato® já no pronto-socorro, assim o ajudando a iniciar o tratamento ambulatorial já protegido do risco de suicídio. Talvez a medicação também seja eficaz para impedir que pacientes que apresentam comportamentos automutilativos (cutting), como os que sofrem do Transtorno de Personalidade Borderline, se machuquem em situações de estresse intenso.

Em resumo, muitas são as evidências demonstrando que o Spravato® será uma droga de grande auxílio no tratamento da depressão refratária, entretanto o seu uso precisa ser muito bem avaliado por um psiquiatra atento as novas pesquisas e aos eventuais riscos associados.


Referências:

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2019-03-23 00:00:00

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