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Punição funciona? Uma explicação dos efeitos em longo prazo da punição no comportamento e no cérebro das crianças. Maria Alice Fontes, Fernanda Lee


A punição tem sido uma das grandes polêmicas da atualidade, seja no campo teórico com a busca de definições e pesquisas comportamentais sobre os seus efeitos, quanto na prática, através da aplicação deste procedimento dentro da família e na sociedade em geral.

No campo aplicado discute-se, por exemplo, se ela deve ou não compor o arsenal para controlar birras e problemas comportamentais em crianças, se é ético usá-la em circunstâncias especiais, ou se ela é eficaz como procedimento enfraquecedor de comportamentos políticos e sociais. Apesar das polêmicas, ou talvez devido a elas, psicólogos e educadores em geral, são constantemente solicitados a opinar a respeito desse tema.

Vamos começar com as definições e depois explicar os efeitos. Segundo Skinner (1953) punição é entendida como um procedimento utilizado para tentar eliminar uma conduta indesejada ou induzir alguém a se comportar de uma forma específica. Para Skinner, punição é um "procedimento" onde um estímulo reforçador negativo ou a retirada de um reforçador positivo, tem o efeito de suprimir uma resposta devido à ocorrência de respostas competitivas. Respostas competitivas? O quê seria isso?

Na interpretação skinneriana, ao punir, a redução observada na resposta não representa uma redução verdadeira em executar tal resposta, mas sim em um fortalecimento de respostas competitivas. Quais seriam as respostas competitivas? Elas seriam a fuga ou a esquiva! Assim, quando punimos um comportamento estamos simplesmente provocando fuga ou esquiva e não ensinando um comportamento melhor adaptado.

Nas palavras de Skinner: “se o efeito [da punição] fosse simplesmente o inverso do efeito do reforço, grande parte do comportamento poderia ser facilmente explicada; entretanto, quando o comportamento é punido, vários estímulos gerados pelo comportamento ou pela ocasião são condicionados no padrão respondente e o comportamento punido é então deslocado por comportamento incompatível condicionado como fuga ou esquiva. Uma pessoa punida continua 'inclinada' a comportar-se da forma punível, mas ela evita a punição fazendo alguma outra coisa, (Skinner, 1974/1976, p. 69).

Primeiro temos que compreender que apesar de muitos anos de punição na história e de alguns ainda acreditarem que ela funcione em longo prazo, a neurociência mostra que situações traumáticas como as punições podem ter efeitos deletérios no desenvolvimento do cérebro. Além de não mudar as respostas, mas de promover respostas de estresse, com aumento de cortisol devido as reações de luta ou fuga.

Quando alguém é ameaçado pelo medo da punição, o cérebro responde com aumento de cortisol e, consequentemente, com redução da massa cinzenta e do tecido conjuntivo entre as células cerebrais. A massa cinzenta é parte integrante do sistema nervoso central e influencia a inteligência e as habilidades de aprendizado. Inclui áreas do cérebro envolvidas na percepção sensorial, fala, controle muscular, emoções e memória. Pesquisas adicionais apoiam a hipótese de que crianças e adolescentes submetidos a abuso e negligência infantil têm menos massa cinzenta do que crianças que não foram maltratadas.

Os profissionais que investigam os efeitos em longo prazo das punições físicas e do trauma encontraram uma ligação consistente entre a punição corporal e o aumento da agressão em crianças. Esse tipo de resposta se correlaciona com vulnerabilidade à depressão e problemas de saúde mental, tipicamente em meninas, e tendências antisociais que se manifestam geralmente em meninos.

A Disciplina Positiva faz uma belíssima contribuição, pois sugere que os efeitos da punição não seriam somente a fuga e a esquiva, mas seriam os Quatro “R”:

1. Ressentimento
2. Rebeldia
3. Retaliação
4. Recuo, por meio de:
a) Dissimulação (“Não vou ser pego da próxima vez.”) ou
b) Redução da autoestima (“Eu sou uma pessoa ruim.”)

Você conhece alguém que já respondeu dessa maneira frente a uma punição? Pois é! Esses são os verdadeiros efeitos. Assim, quando falamos em educação em longo prazo sabemos que punição não é uma resposta eficiente, pois provocar ressentimento e rebeldia, retaliação e recuo não tem nada a ver com educar. Na realidade, o que todos os serem humanos precisam, de acordo com a Dra. Jane Nelsen e colaboradores, são algumas necessidades básicas:

1. O senso de aceitação (conexão)
2. O senso de poder pessoal e autonomia (capacidade)
3. Habilidades sociais e de vida (contribuição)
4. Disciplina gentil e firme ao mesmo tempo que ensine com dignidade e respeito.

Se isso faz sentido para você. Como podemos educar sem punição para alcançar os objetivos básicos que todos nós buscamos?

É importante entender o poder da conexão. Muitos interpretam isso de forma simplista dizendo: “Ele precisa de amor”. Mas, segundo Cheryl Erwin, uma das autoras da Disciplina Positiva, o amor por si nem sempre provoca um senso aceitação ou capacidade. As crianças pequenas que não acreditam que são aceitas se tornam desencorajadas e isso, em geral, acaba provocando problemas de comportamento.

É o senso profundo de aceitação e conexão incondicional que os pesquisadores chamam de “apego”. O apego seguro é a melhor forma de mudança de comportamento em longo prazo, pois promove o aprendizado.

Segundo Daniel Siegel (2012), nossas mentes são sistemas complexos de atividade neuronal determinados pela constituição e experiência. Ambientes seguros e estimulantes trazem experiências positivas que apoiam o desenvolvimento das redes neuronais. Relacionamentos de apego seguro e empáticos são essenciais para otimizar o desenvolvimento do cérebro a adquirir a capacidade de se organizar mais
autonomamente à medida que a criança amadurece.

Evidências demonstram que relacionamentos acolhedores e responsivos, em adição a um senso de conexão maximiza o potencial cerebral das crianças e ajudam na aprendizagem e na autoregulação. Crianças seguramente ligadas constroem modelos de trabalho internos positivos de forma confiável e eficaz. Assim, conexões, relacionamentos e vínculos saudáveis são vitais para o desenvolvimento do
cérebro.

A Disciplina Positiva pode ajudar pais e educadores a encontrar princípios sólidos e referendados pela neurociência, assim como ferramentas práticas para desenvolver relacionamentos saudáveis, sem punições ou recompensas.

Perguntas para refletir:

1) O que você quer ensinar quando está punindo uma criança?
2) Quando você era criança e foi severamente punido, o que você aprendeu sobre você mesmo, sobre os outros e sobre o mundo à sua volta?
3) Que outras ferramentas não-punitivas você conhece?

Bibliografia:

Skinner, B. F. (2003). Ciência e comportamento humano (J. C. Todorov, & R. Azzi, Trans.). São Paulo: Martins Fontes. (Trabalho original publicado em 1953)

Nelsen, J. Erwin, C. Duff, R.A. (2018) Disciplina positiva para crianças de 0 a 3 anos: como criar filhos confiantes e capazes. São Paulo: Editora Manole. (1998)

Mayer, Paulo César Morales, & Gongora, Maura Alves Nunes. (2011). Duas formulações comportamentais de punição: definição, explicação e algumas implicações. Acta Comportamentalia, 19(4), 47-63. Recuperado em 03 de novembro de 2018, de http://pepsic.bvsalud.org/scielo.php?script=sci_arttext&pid=S0188-81452011000400003&lng=pt&tlng=pt.

Siegel, D. (2012) The Developing Mind: How relationships and the brain interact to shape who we are. New York: Guildford Press.
 

2018-11-09 00:00:00

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