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Smartphones: como eles podem ser úteis ao nosso bem-estar mental. Dr. Maurício H. Serpa e Maria Alice Fontes


Em um artigo recente de nosso grupo: “Qual o impacto da tecnologia e dos smartphones nas nossas vidas?” abordamos algumas das implicações nocivas devido ao excesso do uso dos celulares: o risco deste pequeno aparelho atrapalhar nossas vidas ao causar comportamentos compulsivos com sua utilização, o que invariavelmente impacta em nossa qualidade de vida. Há, porém, um outro lado da moeda: uma série de novos aplicativos inteligentes que foram ou estão sendo desenvolvidos para nos ajudar a lidar com o estresse do dia a dia ou para nos alertar de que estamos nos aproximando de nosso limite emocional.

Alguns aplicativos já bem conhecidos e disponíveis nas plataformas de download para iPhone ou Android podem ser utilizados para promover comportamentos saudáveis de combate ao estresse e de detecção de problemas emocionais. Há aplicativos para meditação / mindfulness (como o Headspace e o Calm), para estimular nossas capacidades cognitivas (como o Fit Brains Trainer), para diagnosticar depressão (como o Depression Test), que registram diariamente como nosso humor está (como o Daylio) e para suporte em momentos de ansiedade (como o 7 Cups), além de muitos outros com uma infinidade de funções.

Mas o potencial do uso dos smartphones para o bem-estar parece ir muito mais além do que estes aplicativos já disponíveis. Recentemente, pesquisadores começaram a discutir uma outra forma de tirar proveito de nossa relação cada vez mais inevitável com estas maquininhas: utilizar dados coletados pela nossa interação aleatória com elas para determinar se estamos em risco ou se já apresentamos de fato alguma doença mental, como a depressão ou a ansiedade.

Esse potencial é bem diferente de apenas inserirmos nosso estado atual de humor em algum destes aplicativos já conhecidos.

O pulo do gato aqui é coletar os mais diversos dados através dos sensores do celular, da interação com o teclado, além de dados sobre nossa voz e discurso, de um número enorme de usuários. A partir destas informações, computadores buscariam desenvolver algoritmos de inteligência artificial para detectar padrões que apontem para uma provável alteração psíquica. Por exemplo, com muitos dados sobre os comportamentos do usuário, como sobre sua localização, nível de atividade, grau de socialização, desempenho de memória e atenção ao usar o aparelho, sentimentos descritos em postagens de redes sociais e emoções expressas pela voz, seria possível treinar tais softwares para detectar transtornos do humor com acurácia maior do que uma avaliação clínica, acreditam alguns pesquisadores (Insel, 2017).

Além disso, acredita-se que tais tecnologias possam auxiliar os profissionais da saúde a monitorizar a remissão ou a recorrência de sintomas, e assim antecipar uma visita do paciente ao seu médico ou até mesmo a um serviço de emergência em situações mais críticas.

Seria também possível agir preventivamente até mesmo antes de um transtorno mental se configurar. Informações coletadas sobre a coerência do que fala um usuário durante uma conversa por telefone podem determinar o risco desta pessoa apresentar um quadro psicótico futuramente, como já demonstrados em estudos de aprendizado de máquina avaliando a linguagem de pessoas em estado de risco (Bedi et al, 2015; Gupta et al, 2018).

Enfim, há uma infinidade de possiblidades para usarmos a tecnologia da informação também a nosso favor! Só o tempo dirá se elas serão tão úteis quanto os especialistas estão imaginando.

Questões éticas e legais. O boom destes aplicativos tem feito algumas autoridades se preocuparem cada vez mais com a real eficácia do que é apresentado ao usuário. A American Psychiatric Association (Associação Psiquiátrica Americana, APA), inclusive, criou uma força-tarefa para ranquear os aplicativos de modo a termos uma avaliação mais rigorosa da utilidade clínica destes. No Brasil, o tema ainda engatinha, mas tem sido cada vez mais foco de atenção do Conselho Federal de Medicina e de seus braços estaduais. De qualquer forma, é importante que órgãos regulatórios e de vigilância estejam atentos ao uso destes aplicativos pela população a fim de evitar exposição indevida de informações sigilosas, charlatanismo e manipulação social.

Alguns apps que podem ajudar a cuidar do seu bem-estar mental:

• Headspace: auxilia na prática de mindfulness/meditação
• Calm: oferece pacotes específicos para auxiliar no sono, no controle da ansiedade e estresse, manejo do foco atencional, etc.
• Daylio: monitora nosso humor diariamente, relacionando com o que estamos fazendo, pensando e sentindo.
• Be OK: ajuda a ter controle de crises de ansiedade e pânico através de técnicas de respiração, fotos e sons da natureza. O aplicativo também pode ligar rapidamente para uma pessoa quando você precisar.

Apesar de já termos disponíveis uma série de aplicativos interessantes, vale lembrar que a consulta com um profissional de saúde mental é soberana para se estabelecer diagnósticos e planos de tratamento. Os aplicativos podem ser importantes coadjuvantes para coleta de dados, apoio imediato e treinamento no controle mental. Mas o trabalho integrado do psiquiatra e do psicólogo ainda oferecem os melhores resultados nos transtornos de saúde mental, tão presentes no mundo moderno.


Referências:

Insel TR. Digital Phenotyping: Technology for a New Science of Behavior. JAMA. 2017 Oct 3;318(13):1215-1216. https://www.ncbi.nlm.nih.gov/pubmed/28973224

Bedi G, Carrillo F, Cecchi GA et al. Automated analysis of free speech predicts psychosis onset in high-risk youths [published online August 26, 2015]. NPJ Schizophr. doi:10.1038/npjschz.2015.30 

Gupta T, Hespos SJ, Horton WS, Mittal VA. Automated analysis of written narratives reveals abnormalities in referential cohesion in youth at ultra-high risk for psychosis. Schizophr Res. 2018 Feb;192:82-88. https://www.ncbi.nlm.nih.gov/pubmed/28454920


 

2018-06-10 00:00:00

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