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Principais hábitos e alterações nas funções orais e como tratá-los. Silvia Ruschel, Maria Alice Fontes

Introdução

A região oral é formada por diferentes estruturas, como lábios, língua, dentes, maxila, mandíbula, palato mole e duro, músculos da face, entre outras, que são responsáveis pelas funções orais. Todas as funções orais, incluindo a sucção, deglutição, mastigação, fala e respiração apresentam-se relacionadas e o uso adequado das mesmas será um facilitador para um bom desenvolvimento funcional e anatômico da criança. Cada uma dessas funções deve ser estimulada de forma correta. Entretanto, alguns hábitos orais podem se tornar indesejáveis com o decorrer do tempo, e sua manutenção poderá levar não somente a alterações nas estruturas do sistema orofacial, mas causar prejuízos no processo de desenvolvimento da criança em todos os aspectos (social, emocional, físico e intelectual). 1

A sucção é muito importante para crianças de até dois anos de idade, e em algumas delas a necessidade de sucção é maior. No entanto, é importante que os hábitos orais, como chupeta, mamadeira, ou sucção digital não se tornem um vício, devendo assim ser removidos o mais rápido possível e de forma gradual, para que o equilíbrio psicológico e fisiológico da criança não sofra alterações que levem a prejuízos no seu desenvolvimento. 1, 2

Alguns dos problemas causados pela manutenção dos hábitos orais na criança são: mordida aberta, mordida cruzada, inclinação dos dentes, alterações no padrão de deglutição 1 , dificuldades de fala, problemas respiratórios, desequilíbrio da musculatura facial, além de alterações nos padrões psicológicos e emocionais 3, como a dependência.

Quais são os principais hábitos e alterações nas funções orais?

1. Sucção de chupeta
A sucção apresenta as funções de alimentar e satisfazer a musculatura oral que encontra-se associado com o nível emocional do bebê. É por esse motivo, que algumas crianças utilizam a chupeta para suprir a necessidade de sucção, mesmo após terem sido alimentadas. Como o cérebro necessita dos movimentos de sucção e do cansaço físico para a conciliação do sono reparador, muitas mães agem instintivamente e oferecem a chupeta para criança quando a mamadeira não supre essas necessidades do sistema nervoso, e assim a criança acaba se mostrando mais calma. 3

A sucção digital ou de chupeta envolve os fatores fisiológico (necessidade de sucção), ambiental (início precoce de alimentação artificial) e emocional (dificuldade em lidar com o ambiente). 3

Apesar do uso da chupeta ortodôntica propiciar o fortalecimento da musculatura oral, é importante que seu uso seja feito por curtos períodos de tempo e que não permaneça após os dois anos de idade. Ao atingir essa idade, a criança já fica acordada durante a maior parte do dia, e o uso da chupeta deve ser restrito ao horário de dormir, a fim de não causar danos nos órgãos fono-articulatórios, no desenvolvimento da arcada dentária e do palato, no posicionamento dos dentes, na respiração e na deglutição. 3

2. Mamadeira
Estudos revelam que à medida que a alimentação do bebê é feita por mamadeiras, ele não recebe estimulação sensório-motora adequada, o que pode gerar uma deglutição atípica devido a hipotonia da musculatura perioral e lingual, com seqüelas a longo prazo na deformação da arcada dentária e de palato. 3

O bico ortodôntico de mamadeira apresenta vantagens em relação aos bicos comuns, pois não oferece tanto risco de seqüelas para a criança, já que tem o formato aproximado do mamilo da mãe. Assim, é importante verificar a flexibilidade do bico, o comprimento, o tamanho do furo, a posição em que permanece na boca, a posição do furo e a consistência do alimento que será oferecido. Apesar das vantagens que o bico ortodôntico apresenta (proporciona elevação da língua, aproximação dos lábios e estimulação da musculatura facial e oral), em torno dos 15 meses o uso de copos e canecas com ou sem canudos deve substituir a mamadeira gradativamente. 3

Deve-se considerar que quando a alimentação na mamadeira é feita de maneira irregular, a criança tem sua necessidade nutricional suprida, porém sua necessidade de sucção ainda pode estar em aberto. Quando isso ocorre, pode-se observar que a criança começa a sugar as mãos com voracidade e depois o polegar, geralmente porque o furo do bico da mamadeira era muito grande e o alimento passava facilmente, sem necessidade de uma maior sucção. 3

3. Sucção digital
Até o terceiro mês de vida do bebê, a sucção é um ato reflexo que torna-se gradativamente voluntário a partir dessa idade. Portanto, até 3 meses, se o bebê tiver fome, levará à boca o dedo ou a mão como uma resposta reflexa. A partir dessa fase, o bebê poderá sugar de forma mais voluntária e pelo fato de não exercitar suficientemente o mecanismo de sucção no momento da alimentação, poderá compensar levando o dedo à boca. 4 Assim, a sucção digital pode ser entendida como um hábito que restou do início da vida do bebê, quando ele sugava de forma instintiva as mãos, os dedos ou os pulsos. 3 No entanto, também é freqüentemente relacionada a problemas emocionais da criança, que não conseguiu atingir um nível de maturação psicológico adequado após as mudanças ocorridas no seu processo de desenvolvimento, como a separação da mãe. Nesse caso, a criança necessita da sucção digital ou de outros objetos para superar esses conflitos.

Os prejuízos causados pela sucção digital prolongada (geralmente maiores do que aqueles causados pela sucção da chupeta) estão relacionados aos maxilares, como mordida aberta, cruzada e profunda, dependendo da posição em que o dedo é levado à boca, força durante a sucção, ou a posição da mandíbula durante a sucção. 3

4. Onicofagia
A onicofagia é definida pelo ato de roer unhas, que se inicia geralmente por volta dos quatro ou cinco anos de idade. Esse período é caracterizado por mudanças sociais e emocionais na vida da criança, como a introdução escolar e a ansiedade, e a onicofagia se apresenta como um método para aliviar essas tensões.

Embora a onicofagia possa casar má oclusão dentária, o fator emocional apresenta maior importância e requer uma maior atenção nesse caso. 3

5. Alterações na respiração
A mudança da respiração nasal para bucal traz como principais seqüelas as alterações musculares e ósseas, que geram assimetrias faciais, otite catarral, alterações da forma nasal e obstrução nasal, olheiras, alterações na mordida, queda do desempenho acadêmico, hipotonia labial, lingual e de bochechas, alterações no crescimento facial, problemas de fala, diminuição do crescimento físico, alterações no posicionamento da língua, entre outros. 3

O mal posicionamento lingual é responsável pela deformação dos arcos dentários, e assim, o respirador bucal pode roncar ou babar enquanto dorme, apresentar irritabilidade, cansaço fácil em atividades físicas, gengivas hipertrofiadas, língua flácida e anteriorizadas, deglutição atípica, bruxismo, ombros inclinados para frente, mal posicionamento da cabeça, apetite diminuído, obesidade ou magreza, palidez, respiração e mastigação ruidosas, hiperatividade ou sonolência. 3 Nem sempre, porém, a criança apresentará simultaneamente todas as alterações citadas acima.

As conseqüências se agravam quanto mais cedo for instalada a respiração bucal, já que quando mais jovem for o indivíduo, maiores serão as alterações de oclusão dentária, pois os ossos em indivíduos jovens são moldáveis com maior facilidade. Com isso, pode ocorrer o desenvolvimento crânio-facial inadequado, se houver uma predisposição genética no indivíduo. 3

A etiologia da respiração bucal pode estar ligada por hipertrofia de amígdalas e/ou adenóides, desvio de septo nasal, rinite alérgica e pólipos nasais. Dessa forma, é importante que além da reeducação muscular, a causa orgânica da respiração bucal seja identificada e tratada o mais cedo possível, prevenindo problemas futuros. 3

6. Inadequação da deglutição
Quando ocorre a deglutição normal a língua assume uma posição elevada, indo de encontro ao palato duro. Uma inadequação da deglutição é caracterizada como o posicionamento da língua contra a superfície lingual do dentes incisivos e caninos, ou a protusão lingual entre as arcadas dentárias durante o período de repouso ou deglutição. 3

A origem da alteração na deglutição pode estar associada ao palato estreitado, hipotonia lingual, manutenção de hábitos orais infantis, sucção inadequada, hipotonia de bochechas, respiração bucal, mordida aberta anterior, interposição do lábio inferior atrás dos dentes superiores, arcada pequena em relação a língua, contração da musculatura perioral, etc. Autores como Altmann (1990), reforçam que a manutenção de dieta pastosa, predisposição genética e problemas psicológicos, como a tensão nervosa ou infantilização que levam a manutenção de padrões imaturos de comportamento de órgãos fono-articulatórios, também são fatores responsáveis pela inadequação da deglutição. 3

Como tratar os hábitos orais?

Vários métodos podem ser utilizados na tentativa de eliminar os hábitos orais. 2,3 Porém, o principal foco para o tratamento dos hábitos orais é a sua causa. Moresca e Feres orientam que o paciente deve ser compreendido e jamais ridicularizado por outras pessoas por causa do seu hábito oral. A família deve ser esclarecida sobre os motivos que causam o hábito e mostrar a importância que o apoio familiar detém sobre o resultado do tratamento. Além disso, a motivação do paciente para a remoção de tal comportamento é imprescindível. 3

A procura por um profissional de saúde, seja psicólogo, fonoaudiólogo ou dentista, é importante, já que ele poderá orientar os pais no sentido de melhor conduzir o comportamento da criança dentro do âmbito familiar e a forma com que o diálogo com o filho deve ser feito. A orientação familiar tem o objetivo de evitar que os pais façam chantagem, punam ou reprimam a criança enquanto ela apresenta os hábitos orais, além do fato do profissional ser melhor preparado para conduzir as estratégias do tratamento, cada qual na sua área de atuação. 1

Referências Bibliográficas

  1. http://www.geocities.com/HotSprings/Resort/3606/habitos.htm
  2. BRANAM, S. R. Role of oral habits in children. http://www.drbranam.com/pgeArticle_OralHabits.htm
  3. CASANOVA, D. A família e os hábitos orais viciosos na infância. http://www.fonoaudiologia.com/trabalhos/artigos/artigo-019/artigo-019
  4. CUNHA, V.L.O. Prevenindo problemas na fala pelo uso adequado das funções orais: manual de orientação. São Paulo: Pró-Fono, 2001.

 

2013-05-13 00:00:00

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