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O pipoqueiro na frente da escola. Monica Maino, Maria Alice Fontes

Ao abordar a prevenção do uso de drogas nas escolas, fica evidente a preocupação dos pais em identificar os traficantes para afastá-los do contato com seus filhos. É interessante notar como a figura do pipoqueiro e de outros ambulantes que vendem produtos nas proximidades de escolas está sempre relacionada ao risco de tráfico. Mas, segundo relatos de dependentes químicos, esse temor, em geral, é infundado.

Quem é o traficante?

A primeira idéia errônea dos pais de adolescentes é que o traficante perseguirá seus filhos para motivá-los a experimentar drogas. Na realidade, traficantes não procuram ninguém, sabe por que? Simplesmente porque não precisam. São os usuários que estão sempre à procura dos traficantes.

Na adolescência, em geral o que acontece é que, quando se quer experimentar uma droga ilícita, geralmente se conhece quem já o fez em determinado grupo (escola, clube, academia, condomínio). É essa pessoa que irá fornecer um pouco ou indicar de quem comprou. Veja bem, nesses casos, o adolescente não vai entrar em contato com o traficante do PCC ou do Comando Vermelho, aquele bandidão que povoa nossas fantasias. Isso é mito.

Assim, quando os garotos da escola começam a consumir alguma droga ilícita, nem sempre tem cacife para bancar o próprio uso, sem ?dar bandeira? em casa. Desta forma, a saída é comprar um pouco mais, repassar para os amigos com algum lucro, para poder continuar usando. Essa situação é muito perigosa, pois o jovem pode ser parado por um policial e, dependendo da quantidade que estiver portando, ser detido como traficante.

Às vezes, a polícia monta operações em universidades. ?Planta? um aluno em um curso qualquer, ele começa a frequentar as festas, observa quem passa a droga, dá dicas para seus superiores grampearem telefones e continuarem a investigação e, quando há provas, é hora de pegar a turma toda. Este filme de terror pode acontecer mais fácil do que se imagina.

Interessante é o perfil dos traficantes que ?trabalham? nas regiões mais ricas. Em São Paulo, por exemplo, eles andam de moto para fugir em caso de serem descobertos. Usam roupas de grifes, tênis caro, mostrando-se como perfeitos ?mauricinhos? ; frequentam os mesmos lugares que a turma para quem vendem.

Nos grandes centros, como São Paulo e Rio de Janeiro, por exemplo, existe até o sistema delivery de tráfico. Algum outro usuário fornece o telefone do traficante, que vai entregar a droga em casa. Há jovens que, após algum tempo de consumo, depois de adquirir a confiança do traficante, têm até contas mensais, acertando tudo no dia do pagamento da mesada!

Quando a triste dependência se instala, o que é muito rápido nos casos de usuários de crack e cocaína, o próprio usuário que deixou uma conta pendurada acaba perseguindo o traficante para obter mais droga. Às vezes, o traficante até fornece mais um pouco e manda o sujeito desaparecer. Mas infelizmente ele volta com a televisão da família, aparelho celular ou até alguma peça roubada.

Como se dá o primeiro uso de drogas?

Nas pesquisas brasileiras, onde álcool e tabaco, além de drogas ilícitas estavam incluídas, os dependentes entrevistados relatam que o primeiro uso aconteceu, na grande maioria dos casos, com acompanhamento de algum familiar. Essa é triste realidade das famílias que permitem que seus filhos bebam antes da idade. Em geral, aqueles que apresentam as drogas são pessoas próximas, quer seja do mesmo clube, escola ou da mesma turma da rua, bairro ou condomínio.

Vale lembrar que se o álcool é uma substância psicoativa, embora lícita, o dono do bar próximo à escola, que vende bebida alcoólica para a garotada, deveria ser considerado um traficante também.

Ninguém vai obrigar seu filho a experimentar drogas e, caso ele tenha desenvolvido a competência dizer ?não?, de fazer escolhas menos arriscadas, estará menos vulnerável a esse tipo de situação.

O que os pais podem fazer?

Quando tiver a intenção de falar com seu filho sobre os riscos que as drogas trazem, é bom checar a legislação e mostrar que além dos riscos para a saúde, não se pode ignorar as encrencas com a polícia. Tráfico ainda é crime inafiançável e o acusado não poderá gozar de nenhum benefício, como habeas corpus, por exemplo. Que fique claro que o amedrontamento não funciona como forma de prevenção. Mas a informação é sempre importante. Cabe aos pais mostrar aos filhos os ?contras? de se usar drogas, pois os prós ele acaba descobrindo sozinho. Não precisa negar que elas trazem sensações prazerosas. Vale incentivar a capacidade de decidir e não ceder aos impulsos de forma inconsequente.

Prefira uma abordagem afetuosa à política do medo, tipo: ?você vai acabar preso, morto ou internado?. Caso isso não aconteça da primeira vez, você vai logo se tornar desmoralizado. O melhor seria: ?Os usuários correm o risco de se tornar dependentes e de se meterem em encrencas?. ?Você sabia que se uma pessoa é pega com cinco gramas de cocaína ou um pacote de maconha será acusada de tráfico??

Ofereça sempre alternativas saudáveis como: a prática de esportes, voluntariado, participar de um projeto junto às comunidades carentes ou a instituições que amparam crianças com câncer. Além de constituírem uma preciosa lição de cidadania que nem sempre as escolas proporcionam, fazem os jovens perceberem que têm uma função social.

E se você perceber que seu filho está usando drogas?

Se você percebeu que seu filho está usando drogas, nada de ir tomar satisfações com o traficante. Nunca negocie com traficantes. Nem pense em pagar só uma vez. Denunciar o traficante à polícia pode também ser perigoso. Por outro lado, se ninguém denunciar, como a polícia vai ter pistas, provas? Essa é uma decisão dos pais, que deve ser muito pensada.

A melhor alternativa é procurar ajuda profissional especializada. É fundamental que o psiquiatra ou psicólogo seja especialista em dependência química e que tenha experiência em atendimento e orientação de pais. Nestas horas, saber o que fazer é o primeiro passo.

Desconfie das escolas que garantem não existirem usuários entre seus alunos, pois isso não existe. O ideal é que tenha um programa que inclua a orientação e prevenção do uso. O melhor é sempre adotar a prática de ter os amigos de seu filho por perto. Normalmente, quando o adolescente começa a usar drogas, costuma se isolar, substitui os velhos amigos por outros que evita levar para casa.

Assim, nosso recado está dado: o pipoqueiro, geralmente, só vende pipoca!!!!

Esse artigo foi produzido a partir de pesquisa realizada com dependentes de drogas e da experiência no atendimento a familiares de usuários dessas substâncias. Baseado no livro ?Drogas, tô fora! Um manual de sobrevivência para adolescentes sem drogas?, de autoria da psicóloga Monica Maino, publicado pela Editora Iracema.

2013-02-05 00:00:00

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