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O efeito da psicoterapia no cérebro. Selma Boer, Maria Alice Fontes

A explicação sobre o comportamento e as emoções do ser humano sempre foram alvo de investigação desde os tempos da Antiguidade. A trajetória das neurociências, um campo de estudo que busca explicar as relações entre o  comportamento e a atividade cerebral, vem se desenvolvendo rapidamente devido ao avanço do aparato tecnológico e médico-científico.

 

Quais os principais avanços das neurociências?

 

O avanço da tecnologia possibilitou o desenvolvimento de técnicas de neuroimagem, como Tomografia por Emissão de Pósitron (PET), a Ressonância Nuclear Magnética Funcional (fMRI) e a Tomografia por Emissão de Fóton Único (SPECT), que têm sido cada vez mais utilizadas em pesquisas científicas sobre o funcionamento cerebral associado aos transtornos mentais e seu tratamento. Através desses métodos, é possível conhecer as estruturas e o funcionamento cerebral in vivo.

 

Um dos resultados desse avanço foi a descoberta de que há uma neurobiologia das emoções, caracterizada principalmente pela presença de neurotransmissores, substância contida em um neurônio, secretada por ele e transmitida ao neurônio seguinte. Dessa forma, entendemos que a atividade neuronal, através dos neurotransmissores como a serotonina, a dopamina, a adrenalina, entre outros, tanto desencadeiam, como são reflexos do comportamento e das emoções humanas, funcionando num processo de retro-alimentação.

 

Qual o papel da psicologia dentro das neurociências?

 

A psicologia, como disciplina das neurociências, vê o funcionamento do indivíduo como reflexo da inter-relação entre a cognição, as emoções e o pensamento; assim, o comportamento e as emoções de uma pessoa são determinados, em grande parte, pela maneira como ela pensa sobre si mesma e sobre o mundo a sua volta. Quando há distorções cognitivas, ou seja, a percepção de si e do mundo encontram-se prejudicadas, surgem os distúrbios emocionais, e com elas a necessidade de tratamento.

 

A psicoterapia é o tratamento das desordens psicológicas e emocionais, através de intervenções cognitivas para promover o bem-estar das pessoas. A psicoterapia pode ser individual, familiar, em grupo ou de casal. Através das técnicas psicoterápicas, são apontadas para o paciente as distorções de pensamento relacionadas às suas dificuldades emocionais, buscando diminuir o sofrimento emocional, e favorecer o desenvolvimento de comportamentos mais ajustados.

 

Nos últimos anos, pesquisas do campo das neurociências têm buscado identificar os correlatos neurais associados aos sintomas de pânico, ansiedade e depressão e assim, conhecer os mecanismos biológicos envolvidos tanto nas doenças e também na psicoterapia. Neste sentido, as neurociências tem buscado  elucidar os efeitos da psicoterapia no cérebro, e as pesquisas realizadas até o momento têm comprovado que existem mudanças neurais subjacentes à psicoterapia, correlacionadas com a melhora dos sintomas dos pacientes.

 

Quais são os exemplos que a psicoterapia modifica o cérebro?

 

Um estudo recente com pacientes portadores de depressão (Ritchey et al., 2011), sem o uso de medicação, apontou que a psicoterapia promove um aumento global na ativação da córtex pré-frontal ventromedial, e maior excitação na amígdala, núcleo caudado e hipocampo (uma das regiões cerebrais envolvidas na expressão das emoções).

 

Outra pesquisa realizada na Universidade da Califórnia mostrou, através de estudos de neuroimagem, uma redução da atividade metabólica no núcleo caudado estrutura localizada no hemisfério cerebral direito, com papel importante no sistema de aprendizado e memória) em pacientes com Transtorno Obsessivo-Compulsivo, que passaram por psicoterapia no decorrer de 10 semanas.  

 

No caso de indivíduos com fobias específicas (fobia de animais, de sangue), os estudos de neuroimagem (Porto et al., 2009) mostraram uma diminuição da atividade em áreas límbicas e paralímbicas do cérebro (responsáveis pelo controle emocional do comportamento, memória). Os achados de todas essas pesquisas apontavam para uma correlação com a melhora dos sintomas dos pacientes e mudanças na atividade cerebral.

 

Por que esses achados são importantes para a ciência?

 

Os circuitos cerebrais e nervosos são muito mais plásticos do que se supunha anteriormente. A psicoterapia cognitiva pode alterar o funcionamento cerebral de forma que as memória recolhidas pelo hipocampo são reorganizadas de uma maneira significativa pelos lobos frontais e consolidados novamente na memória. O processo de sentir alguma coisa, falar sobre isso, expressar as emoções, ligando isso a uma lembrança tem consequencias duradouras e benéficas para a qualidade de vida emocional dos pacientes.

 

O conhecimento de mecanismos cerebrais envolvidos na psicoterapia reforçam sua credibilidade como um método eficaz para tratamento dos transtornos emocionais e mentais. As técnicas de neuroimagem possibilitam identificar as principais vias neuronais implicadas nos transtornos emocionais, e assim favorecem o desenvolvimento de tratamentos mais apropriados a cada um deles.

 

Referências Bibliográficas

 

Cozolino J. The Neuroscience of Psychotherapy: Building and Rebuilding the Human Brain. Norton & Company Inc, 2002.

 

Ritchey M, Dolcos F, Eddington KM, Strauman TJ, Cabeza R. Neural correlates of

emotional processing in depression: changes with cognitive behavioral therapy and

predictors of treatment response. J Psychiatr Res. 2011 May;45(5):577-87.

Linden, DEJ. How psychotherapy changes the brain – the contribution of functional neuroimaging. Molecular Psychiatry; 11, 528–538, 2006.

 

Peres, JFP.; Nasello, AG. Achados da neuroimagem em transtorno de estresse pós-traumático e suas implicações clínicas. Rev Psiq Clín; 32 (4); 189-201, 2005.

 

Porto PR e cols. Does CBT change the brain? A systematic review of neuroimaging in anxiety disorders. J Neuropsychiatry Clin Neurosci.;  21:2, 2009.

 

Roffmann JL e cols. Neuroimaging and the functional neuroanatomy of psychotherapy. Psychological Medicine; 35, 1385–1398, 2005.

 

 

2011-11-13 00:00:00

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