Página Inicial

O que é a Depressão Infantil? Maria Alice Fontes

Como se define a depressão infantil?

 

Ao contrário do que muitos pensam, crianças também sofrem de depressão. A depressão que sempre pareceu um mal exclusivo dos adultos hoje em dia afeta cerca de 1% a 3% das crianças na fase pré puerperal e 3% a 9% dos adolescentes.

 

Diagnosticar depressão é mais difícil nas crianças, pois os sintomas podem ser confundidos com irritabilidade, birras, mau humor e agressividade. O que diferencia a depressão das tristezas do dia a dia é a intensidade, a persistência e as mudanças nos hábitos normais das atividades da criança. A depressão infantil é um transtorno do humor capaz de comprometer o desenvolvimento da criança ou do adolescente e interferir com seu processo de maturidade psicológica e social. As manifestações da depressão infantil e dos adultos são diferentes, possivelmente devido ao processo de desenvolvimento que existem na infância e adolescência.

 

O que pode causar a depressão infantil?

 

A etiologia da depressão tem sido estudada por vários autores, e não se encontrou uma causa específica que possa justificar quadros de depressão na infância. Entretanto, existem vários fatores de risco associados ao aparecimento da depressão, que podem ser encaixados em três categorias: biológica, psicológica e social/ambiental.

 

Dentre as causas biológicas, a mais significante e bem estudada é o fator genético ou a hereditariedade para a depressão. Vários estudos tem mostrado altas taxas de depressão nos parentes adultos de crianças ou adolescentes com depressão.

 

Em relação aos aspectos psicológicos sabe-se que situações traumática, tais como: separação dos pais, mudança de colégio, morte de uma pessoa querida ou animal de estimação podem desencadear quadros de depressão.  Com relação aos aspectos sociais e ambientais imagina-se que a pobreza, faltas econômicas e sociais importantes podem estar relacionadas com a depressão.

 

Bebês podem apresentar depressão? Em que idade ela é mais frequente?

 

John Bowlby contribuiu, com as suas investigações para o estudo das reações da criança frente a uma separação materna e associou estes comportamentos como uma primeira depressão. O autor defende que a fase considerada mais crítica situa-se entre os 5 meses e os 3 anos de idade. Numa primeira instância, o bebê atravessa uma fase de protesto no momento de separação (com choro, agitação e manifestações que persistem até dois ou três dias); posteriormente segue-se a fase de desespero (rejeição por parte do bebê em comer, vestir, não aceita nada do meio que o rodeia, assemelhando-se a um estado de grande luto) e, por último, aparece a fase de desvinculação (recusa a presença de enfermeiros, não aceita os seus cuidados sem a presença da mãe). Este tipo de depressão infantil pode ocorrer muito precocemente e está relacionada com a ausência dos cuidados maternos.

 

Apesar da depressão poder aparecer em qualquer idade, o risco de desenvolver depressão aumenta significantemente com a puberdade. A prevalência de depressão nos adolescentes chega a 20% a 25%, de acordo com a Academia Americana de Psiquiatria da Infância e Adolescência.

 

Que sinais a criança apresenta? Quais comportamentos ela começa a apresentar?

 

Os principais sintomas de depressão na infância são:

 

-       Sentimentos de desesperança

-       Dificuldade de concentração, memória ou raciocínio

-       Angústia

-       Pessimismo

-       Agressividade

-       Falta de apetite

-       Tronco arqueado

-       Falta de prazer em executar atividades

-       Isolamento

-       Apatia

-       Insônia ou sono excessivo que não satisfaz

-       Desatenção em tudo que tenta fazer

-       Queixas de dores

-       Baixa auto-estima e sentimento de inferioridade

-       Idéia de suicídio ou pensamento de tragédias ou morte

-       Sensação freqüente de cansaço ou perda de energia

-       Sentimentos de culpa

-       Dificuldade de se afastar da mãe

 

Quando os pais ou responsáveis podem perceber a depressão infantil?

 

Os pais ou responsáveis podem perceber a depressão infantil quando ocorrer uma mudança significativa no comportamento da criança que envolva os sintomas acima descritos.

 

A sobrecarga com atividades frequentes no dia a dia pode também ser causa da depressão?

 

Relações parentais desestruturadas, cobranças excessivas e a falta de tempo livre, podem ser fatores causadores da depressão infantil. A preocupação excessiva com o futuro da criança também têm influenciado as decisões dos pais na hora de conduzir o cotidiano dos filhos.

 

Muitos pais acham que as crianças devem se preparar para a concorrência profissional desde cedo e concordam que para estarem preparadas para a vida devem estudar mais do que brincar. Só que é preciso ficar atento. As crianças estão cada vez  assumindo mais responsabilidades e compromissos, além do que podem suportar, brincando menos do que deveriam.

 

O excesso é prejudicial ao desenvolvimento infantil e gera desinteresse pelos estudos, pelas brincadeiras, além de problemas na aprendizagem, queda no rendimento escolar, estresse, cansaço e até depressão.

 

O desempenho escolar pode ser sinal de quadro de depressão?

 

Há vários estudos a respeito da relação entre depressão infantil e rendimento escolar. As principais alterações estão nas funções cognitivas como atenção, concentração e memória. É alta a incidência de sintomas depressivos em crianças com dificuldades escolares quando comparada com populações de depressão sem presença de dificuldade de aprendizagem.

 

O baixo rendimento escolar decorrente da depressão parece estar associado com as dificuldades destas crianças em prestar atenção na explicação, apesar de terem habilidades cognitivas correspondentes à faixa etária. Dificuldades de aprendizagem e sintomas de desordem afetiva costumam ser confundidas, e essa situação demanda uma investigação cuidadosa. É necessário verificar qual o quadro primário, a depressão ou a dificuldade de aprendizagem para que o encaminhamento de tratamento seja adequado. Sabe-se que crianças com dificuldades de aprendizagem e baixo rendimento escolar demonstram mais sintomas depressivos do que crianças sem queixas acadêmicas.

 

Apesar de outras controvérsias, há um consenso entre os autores de que, independente da faixa etária, a depressão produz prejuízo no funcionamento do indivíduo tais como alterações na forma de pensar, alterações de humor e do comportamento.

 

Quais as formas de diagnosticá-la? O diagnóstico é preciso ou pode ser confundido com outra doença?

 

Para o diagnóstico de depressão na infância é importante que os sintomas estejam presentes por pelo menos 2 últimas semanas e que representem uma mudança significativa do funcionamento da criança com pelo menos um dos sintomas:

 

1.     Humor depressivo durante a maior parte do dia (sentimento de tristeza, vazio, lágrimas);

2.     Marcada diminuição do prazer ou do interesse em várias atividades;

3.     Perda ou ganho significativo de peso;

4.     Insônia ou sonolência aumentada quase todos os dias;

5.     Agitação  ou lentificação psicomotora;

6.     Cansaço ou perda de energia quase todos os dias;

7.     Sentimento de vazio ou culpa inapropriada;

8.     Diminuição da capacidade de pensar e de se concentrar quase todos os dias;

9.     Pensamentos recorrentes de morte ou ideação de acabar com a vida.

 

Há evolução da doença se não tratada na fase inicial? Quais os riscos para a criança?

 

Para as crianças, o tratamento da depressão podem incluir psicoterapia isoladamente ou em combinação com medicação antidepressiva. Embora as opiniões variem sobre o qual o tratamento da depressão deve ser julgado em primeiro lugar, um crescente corpo de evidências indica que a melhor abordagem para a maioria das crianças é uma combinação de ambos. O plano de tratamento devem ser adaptados para a gravidade dos sintomas da criança e como eles afetam o seu desenvolvimento.

 

Muitos tipos de psicoterapia estão disponíveis. Para tratamento da depressão, a terapia cognitivo-comportamental pode ser especialmente eficaz. Crianças que estão deprimidas muitas vezes têm uma visão negativa de si mesmas. Com a terapia cognitivo-comportamental, as crianças aprendem a desenvolver uma perspectiva mais positiva, o que pode ajudar a aliviar a depressão. É sempre útil as famílias estarem igualmente envolvidas na terapia.

 

Transtornos do humor não tratados durante a adolescência estão associados com um risco aumentado de suicídio. Algumas pesquisas também indicam uma ligação entre uso de antidepressivos e aumento pensamentos suicidas em crianças em tratamento com esses medicamentos, por isso é importante para os médicos a avaliarem cuidadosamente os riscos e benefícios antes de prescrever antidepressivos para crianças. Ainda assim, para muitas crianças, os benefícios dos antidepressivos superam os riscos.

 

Mesmo quando os sintomas de depressão vão embora, a psicoterapia ou os antidepressivos devem continuar por um tempo, pois isso irá reduzir o risco da depressão se repetir.

 

A detecção precoce e tratamento da depressão é importante em qualquer idade, o apoio da família é essencial. Se você suspeitar que seu filho está deprimido, entre em contato com o seu médico ou um profissional de saúde mental.

 

Qual o tratamento para a criança?

 

O tratamento da depressão deve estar baseado em dois pilares: o medicamentoso e a psicoterapia. Esta última é imprescindível, pois em muitas depressões leves a psicoterapia é suficiente para curá-la. Em depressões mais graves, devemos associar o tratamento medicamentoso com o psicoterápico.

 

O médico, o psicólogo, pais e professores devem estar envolvidos nesse processo. Deve-se buscar tantas informações quantas forem necessárias, pois somadas, ajudarão aos profissionais a realizar uma intervenção mais eficiente. Conhecer as amizades da criança, seus gostos e desejos, suas críticas, fantasias é fundamental para todos os que intervêm nessa criança.

 

Costuma-se dizer que para o tratamento das crianças é fundamental a participação dos pais, pois todos precisam “remar” na mesma direção. Os pais precisam receber orientações de como lidar com a criança deprimida dentro de casa e ajudá-la a sair desta condição o mais rapidamente possível. A depressão é uma condição crônica e recorrente, e em caso de não ser bem tratada pode ter recidivas.

 

Qual o papel da comunicação entre pais e filhos?

 

Às vezes é mais fácil negar que seu filho tem depressão. Você pode adiar a procura de um profissional de saúde mental devido a estigmas sociais, no entanto é muito importante entender a depressão e perceber a importância do tratamento para que a criança possa continuar a crescer fisicamente e emocionalmente de uma forma saudável. Também é importante procurar informações sobre depressão e seus  efeitos futuros durante a adolescência e idade adulta.

 

Se você é um pai de uma criança ou adolescente, está ciente dos desafios envolvidos na comunicação com os filhos. Aqui estão algumas dicas para tornar seu contato mais fácil com as crianças ou adolescentes:

 

-       Ao disciplinar o seu filho, substituir a punição pelo reforço positivo. Vergonha e punição podem fazer uma criança e um adolescente se sentirem inúteis e inadequados.

-       Autorize o seu filho a cometer erros. Superproteção pode ser percebida como uma falta de confiança nas suas capacidades. Isso pode torná-los menos confiantes.

-       Dê espaço para o seu filho. Não espere que eles façam exatamente o que você diz o tempo todo.

-       Não force seu filho a um caminho que você gostaria de seguir. Evite tentar reviver sua juventude por meio de atividades e experiências do seu filho .

 

Se você suspeitar que seu filho está deprimido, permita ouvir suas preocupações. Mesmo se você não acha que o problema é uma preocupação real, lembre-se que algumas queixas podem ser muito reais para eles. É importante manter a linha de comunicação aberta. Tente evitar dizer ao seu filho o que fazer. Em vez disso, ouça atentamente e descubra mais o que causam os problemas.

 

Se você se sente incapaz de chegar perto de seu filho ou criança, procure ajuda de um profissional de saúde mental qualificado.

 

Bibliografia

 

Carrey, Crocker, Coleman, Elias, Feldman. Developmental Behavioral Pediatrics. Sounders Elservier. Fourth Edition, 2009

 

http://www.mayoclinic.com/health/depression-treatment/AN00685

 

http://www.medicinenet.com/depression_in_children/page2.htm#expect

 

http://gballone.sites.uol.com.br/infantil/depinfantil.html

 

 

2011-08-26 00:00:00

Profissionais relacionados

Assine nosso Informativo

Cadastre-se gratuitamente e receba nossos Boletins:
CRP/SP: 3605/J
R. João da Cruz Melão 443, Morumbi, SP (mapa)
© 2017. Clínica Plenamente.
O conteúdo deste site é protegido pela Lei de direitos autorais (Lei nº 9.610/1998), sendo vedada a sua reprodução, total ou parcial, a partir desta obra, por qualquer meio ou processo eletrônico, digital, ou mecânico (sistemas gráficos, microfílmicos, fotográficos, reprográficos, de fotocópia, fonográficos e de gravação, videográficos) sem citação da fonte e a sua reprodução com finalidades comerciais.